Explico-me: uma das grandes motivações para o bom jornalismo é, justamente, a denúncia de injustiças sociais e a natural cobrança feita em cima dos responsáveis. Uma matéria de um telejornal pode muito bem evidenciar a injustiça e, dependendo do grau de exposição, fazer um “alarde” suficiente para que medidas sejam tomadas e o problema seja resolvido. Naturalmente, não é sempre que isso acontece. Há casos que, embora noticiados no jornal, geram no máximo respostas paliativas das autoridades – sempre muito bem escritas, embora, em geral, não digam grande coisa. E, pior que isso, os próprios jornalistas podem deixar de lado o caso, com o passar do tempo e o surgimento de novos casos de denúncia.
As denúncias de um jornal insinuam o que querem dizer – aquela tal de imparcialidade impede que as coisas sejam ditas de forma clara. Em geral, eles são conduzidos de modo a fazer o telespectador perceber o absurdo daquilo que está sendo mostrado, a grande injustiça que aquilo representa e, dessa forma, naturalmente se voltem contre os responsáveis – mas nada disso é dito pelo jornalista, que continua com sua aparência de neutralidade, embora não existam dúvidas sobre de que lado está se posicionando.
No “Proteste Já”, não há pretensão de ser imparcial. Rafinha Bastos (que é o cara ideal para fazer o quadro) também não tem a mesma obrigação diplomática que teria um jornalista. O lado mais “escrachado” do programa favorece amplamente o tipo de conduta de Rafinha, que pode muito bem “falar na cara” das autoridades aquilo que pensa – algo que os jornalistas não poderiam fazer. E ao agir assim, Rafinha cria uma identificação natural com o telespectador, que, em geral, adora quando as autoridades “ouvem umas verdades” de vez em quando, algo que numa matéria tradicional seria apenas insinuado.
Mas a grande capacidade do quadro não está apenas em poder dizer aquilo que pensa com mais liberdade do que numa matéria tradicional. Também está na reação que essa atitude gera naqueles que devem respostas aos interessados do problema em questão. Dessa vez, eles não podem mais dizer o que bem entenderem. Não bastam mais frases elaboradas e retóricas, que tentam apenas suavizar uma situação que não se pretende mudar. Ora, Rafinha está atento à essas artimanhas e deixa os responsáveis tão encurralados que a eles não cabe outra coisa senão concordar que há um problema e que algo deve ser feito com urgência para corrigí-lo. E se não for feito, pior para eles.
O “Proteste Já” abraça o caso e continua com ele até o fim – custe o que custar, como evidencia o nome do programa. Estipula-se um prazo para a solução, e ao término dele, o CQC irá conferir. Os “culpados” sabem que não se trata de um jornal, para o qual bastaria emitir uma nota de esclarecimento. E por mais que o problema não chegue a ser resolvido inteiramente, os envolvidos foram expostos no programa e (como não podia deixar de ser) foram debochados, o que, no mínimo, garante uma “vingança” que não é possível assistir num telejornal. Penso que os efeitos causados (a simpatia do telespectador, o desconforto dos responsávéis e a natural resolução do caso) são os mesmos buscados pelo jornalismo convencional, mas com uma “cara-de-pau” muito maior, e que normalmente é extremamente útil para resolver os problemas. Parece-me que, se os jornalistas fizessem as mesmas perguntas e agissem de modo parecido ao de Rafinha Bastos, estaríamos mais próximos de conseguir efetivas soluções por parte das autoridades.