Reflexões Jornalísticas Sobre o Caso Eloá

Publicado em quarta-feira, 22 outubro 2008

7


Há muitas pessoas com entendimento suficientemente claro para perceber a má atuação dos meios de comunicação no Caso Eloá (a bola da vez para a imprensa ). Convém então pensar como a participação do jornalismo poderia ser melhor conduzida. E essa não é uma tarefa das mais fáceis. Sabemos, de antemão, que não deveríamos ligar para seqüestradores, nem filmarmos atendimentos em ambulância, nem velórios, nem enterros. Também seria interessante se evitássemos a promoção da nossa própria empresa, através de jargões do tipo “exclusivo”, “nossa equipe”, etc. E naturalmente, evitar transformar o drama alheio em um circo que só tem o objetivo de fazer com que nossa audiência aumente.

Mas como noticiaríamos o caso então? Certamente iria virar notícia. Não sei exatamente de que maneira. A sugestão é exatamente fazer o oposto daquilo que se critica (e que, na maior parte das vezes, não parece algo tão difícil assim). Sabemos que a notícia deveria ser dada com uma repercussão muito menor (talvez não devêssemos provocar a comoção popular apenas para dizer que ela é legítima). Pode-se dizer que um caso de 100 horas de seqüestro merecia destaque – o que é verdade. Mas quando o seqüestro começou (e a espetacularização também) o tempo não havia chegado a tanto. E certamente há muitos casos do gênero, que também envolvem adolescentes e que não viram notícia. Penso que a mídia não reflete com o devido cuidado sobre aquilo que merece ganhar destaque ou não, e simplesmente embarca no fato – que afinal, é o público quer saber, segundo o argumento geralmente dado.

O que não se sabe até onde se inicia esse ciclo: o assunto ganha destaque por causa da comoção do público ou a comoção do público faz o assunto ganhar destaque? Essas coisas se confundem, se misturam, e creio que não é possível atribuir totalmente a responsabilidade a alguma das duas afirmações. Sou levado a crer, entretanto, que, se for pra ter uma culpada maior, vai ser a mídia. Enfim, é ela que leva o caso até nós. E ela faz isso carregando o fato de emoção. Depois de noticiar, diz que o caso teve comoção popular. Certamente teve, e certamente ela contribuiu de forma significativa para tal. Embora não assuma, naturalmente.

Me parece que a mídia não parece muito interessada em discutir a mídia. Os espaços alternativos, nesse ponto, se tornam bastante importantes porque permitem que se pense a respeito com mais atenção. Seria muito interessante se o jornalismo explicasse alguns dos seus processos para a população comum, até para que ela desenvolva de forma mais eficiente seu pensamento crítico. Isso não acontece. Caso fosse assim, seria possível exigir uma cobrança muito maior em relação aos meios de comunicação, o que provavelmente impediria que casos tristes como esses virem mero sensacionalismo.

Reflitamos, pois.

Publicado em: Jornalismo