Quando eu estava começando a criar coragem de mostrar o que escrevo, alguém me perguntou se eu já havia lido Kundera. Eu nunca havia ouvido falar nele. Mas fiquei curioso pra saber qual era a relação entre esse senhor de nome esquisito e aquilo que eu escrevia. Fui então atrás daquele que me pareceu ser o seu livro mais famoso, “A Insustentável Leveza do Ser”. Não lembro dos comentários que li sobre o livro, mas creio que devem ter me agradado, embora provavelmente eu tivesse algum receio.
Sei apenas que me simpatizei com o autor por ver que ele citava a Boêmia, terra de muitos dos meus antepassados. Confesso que não lembro muita coisa da história, mas sei que realmente gostei. Tanto que, pretensiosamente, cito Kundera em algumas das minhas crônicas feitas logo após ler esse livro. Há inclusive uma em que falo não ser recomendável para as mulheres de família. E de fato não é. Por essas e outras que o livro é tão bom.
Mas não quero falar da insustentável leveza do ser, que inclusive já tentei refutar, falando que às 14h de um domingo ela dura mais. Quero falar do livro em que gastei apenas cinco reais. “O Livro do Riso e do Esquecimento”. Depois de alguma resistência para começar a lê-lo (as páginas pareciam pesadas demais), criei coragem e não me arrependi.
Me atrai muito a não linearidade das histórias. A exemplo do que disse Federico Fellini, a história tem que ter começo, meio e fim, mas não necessariamente nessa ordem. Assim é que as sete partes do livro são divididas em pequenos capítulos, que não duram mais que duas páginas. E que também não são necessariamente uma seqüência natural da história. Por vezes há ali uma ruptura. Seja para continuar a contar de outro ponto, ou para Kundera ter um dos seus maravilhosos insights.
A exemplo dos outros livros, esse não é muito recomendável para quem prefere uma leitura sem sobressaltos. Já na primeira parte, cita-se alguém chamado Masturbov, por exemplo. Na segunda, descreve-se um ménage à trois. Na terceira, o próprio Kundera fala de certos desejos frenéticos que teve, e que enrubesceriam qualquer menina do interior. Na quarta, os personagens fazem amáveis considerações sobre orgasmos. Na quinta, há um caso de traição. Mas o que há de mais deplorável nessa parte é uma reunião de escritores. Não vou falar nada da sexta parte. Quem quiser que confira pessoalmente, não quero me comprometer. Na parte final, o personagem discute vida erótica.
Mas seria muito simplório resumir esse livro apenas a esses momentos libidinosos. E seria ainda mais infantil se eu dissesse que esses momentos são descritos de forma vulgar. Todas as páginas, embora dotadas de uma crueza que à primeira vista pode assustar, são recheadas de vida e sentimento, como poucos. Não esqueçamos que é um livro que se propõe a falar do riso e do esquecimento, e não de aventuras sensuais. Sinto uma ternura muito grande pulsando por ali.
Falar de um livro do Kundera, mesmo despretensiosamente como estou fazendo, torna essencial falar de suas metáforas. Deus, o que é aquilo? As metáforas são criativas, bem explicadas, e se repetem no decorrer da história. Ou seja, é como se o significado delas ficasse martelando o tempo todo, de modo a ajudar na compreensão do que está sendo dito na história. Assim é que ele cita, por exemplo, a dança da roda, para falar de uma espécie de exaltação, uma rara satisfação em estar alegre com pessoas alegres, que compartilham das mesmas coisas e das mesmas idéias. E também tem a metáfora da página 100.
Pelo menos no meu livro é a página 100. E na verdade não é ali que ela aparece pela primeira vez. Mas ali que ela faz sentido, e um sentido arrasador. Simplesmente nos compara a avestruzes. O avestruz não emite som. Se estivermos no zoológico, eles vão vir correndo até nós. Vão abrir e fechar a boca, como se tivessem algo pra falar. Mas não falam nada! Pelo menos não que a gente escute. E isso nos angustia. Mas na verdade, o que os avestruzes querem é o que todos queremos. Falar de si. Dizer “como comeram, como dormiram, como correram até a cerca e o que viram atrás dela”. Nós estamos do outro lado da cerca, e não temos o menor interesse em ouvir um avestruz falando de si.
Eu poderia escrever só sobre essa metáfora. Mas quero falar ainda da leveza da leitura. Eis aí o que temos de mais irônico. O livro se lê rapidamente, seja pelo formato ou pelo estilo de escrever. E quisera eu mencionar aqui o nome do tradutor. Porque ele me fez acreditar que Kundera na verdade não tinha nada a ver com Praga, que ele deve ter nascido por aqui mesmo. Mas quem diria! No livro do Riso e do Esquecimento, esqueceram de mencionar o tradutor. Seria engraçado se não fosse triste.
As histórias também deixam, com o perdão do clichê, um gosto de quero mais. À exceção de Tamina, a personagem que é para ser a principal, e que aparece em duas partes do livro, os demais não voltam. A história acaba e eu quero continuar lendo sobre eles, não quero deixá-los abandonados. Ou esquecidos. Acho que escrever uma boa história tem muito a ver com isso. Se eu não quero que ela termine, tenho uma boa história.
Voltando a falar da não-linearidade, é digna de méritos a capacidade de Kundera em dialogar com as próprias histórias, utilizando os personagens para fazer reminiscências de coisas que aconteceram consigo mesmo. E novamente, com uma sinceridade estupenda. Além disso, há uma visão histórica, a partir da invasão de Praga por parte dos russos. Kundera foi um dos perseguidos. É impressionante a capacidade de unidade que percebo no livro. Quando disse esse título em voz alta, alguém estranhou que se pudesse falar do riso e do esquecimento numa mesma publicação. Pois é absurdamente possível.
Assim como é possível juntar muitos capítulos, em várias histórias, incluindo a própria história do autor, e fazer com que tudo contribua para o resultado final e com o propósito do livro. Nada vou falar sobre o riso e sobre o esquecimento, porque na verdade, me dei conta de que ainda tenho que comer muito feijão antes de fazer considerações sobre alguma coisa.
O Livro do Riso e do Esquecimento
Quinta-feira, 15 Maio 2008 por Henrique Luiz Fendrich
Eu já o li, esse livro é ótimo: a insustentável leveza do ser…, muito bom esse livro recomendo!
É preciso uma vigilância supra-humana para ler Kundera. Ele não permite que respiremos. Cheguei ao final de A Insustentável Leveza do Ser sem fôlego. As frases são possuidoras de um significado tão denso que cada uma delas mereceria um tratado. A não-linearidade é estonteante, mas Kundera, como poucos, permite, mesmo com as quebras abruptas de fluxo, que o sentido permaneça intacto, a salvo. Suas metáforas são dotadas de brutalidade, mas em vez de deturpar, satisfazem-nos. Tenho uma quase saudade das pessoas a que Kundera me apresentou. Uma quase dor.