
Da onde eu estava sentado, fui um dos primeiros a ver quando ele parou na porta. Mesmo sem ter visto muitas fotos, reconheci-o imediatamente. Nada contei a quem estava do meu lado, esperando a comoção que aconteceria assim que os outros também se dessem conta da sua presença. O que não tardou a acontecer, e logo os aplausos e os flashes tomaram conta do auditório em que todos estavam para vê-lo. Aquele velhinho está prestes a completar 80 anos, totalmente lúcido, e ainda nos fala que tem um irmão mais velho. Sentou-se na sua cadeira, e esperou as palavras de acolhimento que iriam lhe dirigir. Aquele senhor, meus senhores, vai falar do Brasil! Chamado de arcaico, vai ousar defender o lugar e as coisas de onde mora, e mesmo sem querer, vai colocar o dedo na ferida de muita gente.
Deu uma tossida. Abriu uma bolsa e começou a tirar livros e papéis de dentro. “Vocês fiquem tranqüilos que eu não vou ler tudo isso”. Já se notou o sotaque nordestino. Sua voz era rouca, mas todo mundo entendia. Foi a primeira gargalhada da noite. Disse que se preparou para falar de um assunto, mas depois do que havia lido numa revista naquela tarde, resolveu mudar um pouco. A revista tinha uma reportagem que falava sobre uma tese de doutorado defendendo que Aleijadinho não existiu: foi uma criação do Estado Novo. Fez parte da tentativa de Getúlio Vargas de contruir uma identidade nacional. É provável que até mesmo o Tiradentes seja uma criação getulista. O simpático velhinho fica indignado com isso. “Se eu tô na banca e me aparecem com essa tese, eu dou zero. Tá louco!”, falava. Mas não em tom revoltado: falava como quem conta uma piada. O bom dessa tese absurda foi que naquela noite nos rendeu uma defesa do nosso país, junto com boas e divertidas histórias.
É sempre bom alguém nos lembrar que a Suécia não é tudo isso que pintam. Lá eles não riem de sí próprios, como aliás nenhum outro país faz. É um povo triste que tem uma das maiores taxas de suicídios (suecídios?). Enquanto que aqui, adoramos dar risada. O velhinho diz que não vê diferença entre quem mora no sul (“do Rio de Janeiro pra baixo já é Sul”) e quem mora no norte ou nordeste: somos as mesmas pessoas, vivemos as mesmas coisas, apenas com algumas peculiaridades. Mas no Brasil temos uma unidade incrível. Em 1970 ele já previa uma unidade maior, a da América Latina. Falando apenas duas línguas, é mais fácil se unir do que na Europa. “O espanhol é o português falado errado”. Sorte a nossa que falamos “desespero”, e nossos hermanos são obrigados a falar “desesperación”. O velhinho tem a platéia na mão. Brasileiro gosta de rir, está provado.
Ele não quer que o Brasil vire um Estados Unidos de terceira categoria. “Nem de primeira”. Deixa a entender que é isso que parecemos querer. Fica no ar a pergunta de qual o grande escultor americano. Não há por lá também nenhum Villa-Lobos. Os bons nomes de lá são conhecidos por cinco ou seis. O país renega a cultura indígena, a grande riqueza americana. Quem faz sucesso é o Michael Jackson. Ele até desistiu de falar mal de Jackson ultimamente, por tudo que a mídia faz com ele. Está esperando algum novo nome aparecer pra poder direcionar todas as críticas. “Se vocês querem me ver perdido e sofrendo, me soltem num aeroporto em Nova Iorque”.
Esse homem falou de cabras, pois também é criador. Quem diria que nem elas escapam das nossas distinções estúpidas. Há cabras SRD (Sem Raça Defininida, que são as brasileiras) e POI (Puro de Origem Importada). E citava causos divertidíssimos, mas cujo sentido iam muito além do humor: tratava-se da auto-estima do brasileiro e a valorização das suas próprias coisas, da nossa alegria surpreendente, da capacidade de agregar quem vem de fora. “Outro dia eu achei a coisa mais linda uma japonesa dançando fandago”. Ê, Brasilzão!
Quase uma hora de gargalhadas e reflexões interessantíssimas depois, o velhinho fez uma pausa. “Essa foi só a introdução”. Bendita tese absurda. Então, passou a se dedicar ao tema que pensara: as novelas picarescas. Um gênero de prosa característico da literatura espanhola. E nos brinda com a leitura de um trecho de “Lazarillo de Tormes”, uma novela anônima no século XVI, e precursora do estilo. Faz questão de mostrar o caráter universal da trama, que poderia muito bem se passar no nordeste de hoje, com todas as dificuldades sociais que o personagem tem que passar. Certa vez um crítico falou que “O Auto da Compadecida” era cópia de um autor francês, que ele nunca havia lido. Depois veio um segundo crítico e falou que as duas eram cópias de Cervantes. E ainda veio um terceiro que falou que num dos capítulos do D. Quixote, Cervantes se inspirou numa velha história do norte da África, que foi trazida para a Península Ibérica no século V. São histórias universais!
Ouvimos e rimos em ainda mais duas curtas histórias. Ficamos então sabendo que sempre há um pouco de crueldade no cômico. Aliviada pelo caráter fictício da obra. “Por isso que eu fiz essas palhaçadas aqui, pra que vocês pudessem rir mesmo com a parte trágica da história”. Voltando a falar de Cervantes, lembra que Dostoiévski (todo nordestino devia falar Dostoiévski) falou que era necessário a todo mundo, na hora do juízo final, carregar no braço um exemplar de D. Quixote. Pra apresentar como argumento de defesa.
E ali na minha frente estava um D. Quixote do Brasil. Em cima de seu cavalo, não hesita em partir na direção dos moinhos de vento do imperialismo, não dando importância alguma ao que os Sancho Panças alegam, falando que os tempos são modernos e que os conceitos são outros. “Dizem que sou arcaico”, repete. Esse D. Quixote tupiniquim fala em cultura brasileira, quando todo mundo julga conveniente aderir à cultura estrangeira, em tempos de globalização. Possui cabras que representam o povo indígena, o povo negro, o povo português e os povos que vieram depois. Avante, pois! Avancemos então contra os gigantes que os teimosos insistem em dizer que são moinhos de vento! Vistamos as armaduras de nossos ideais e viajemos pelo mundo desfazendo as injustiças e lutando pelos valores que julgamos dignos! Avante!
* Sobre uma palestra de Ariano Suassuna.
ei, tudo bem? queria falar contigo por e-mail ou msn. como faço?
até.
http://semacento.wordpress.com