O Pasquim é um espaço pra dar palpites furados sobre jornalismo, literatura, música, e manifestações culturais em geral. Também é minha tentativa de dar atenção à vida que se esconde. E minha ilusão de que posso ser ouvido!
Demorou sete períodos na faculdade de jornalismo para termos aula de Antropologia. Mas, para recuperar o tempo perdido, tivemos que assistir o filme “Crash – No Limite” e lermos o livro “O que é Etnocentrismo”, de Everardo Guimarães Rocha, para então relacioná-los. E ambos os produtos são campos férteis para comentários.
A realidade apontada em “Crash” mostra como é fácil colocar a si mesmo, ou ao seu próprio grupo étnico, no topo de uma certa “hierarquia evolutiva”. É ainda uma herança – maligna, nesse caso – deixada pelo pensamento darwiniano. Assim, os grupos engrandecem seus próprios valores e questionam, ainda que inconscientemente, os valores dos outros, criando, dessa forma, uma situação de conflito que em nada parece ser proveitosa.
Não é difícil fazer com que tenhamos as nossas próprias opiniões sobre o que vem a ser o “outro”, sem lhe dar seque a oportunidade de se explicar por si só. Rocha (p. 17) lembra que “o ‘outro’ é alguém calado, a quem não é permitido dizer de si mesmo, mera imagem sem voz, manipulado de acordo com desejos ideológicos”. Aquilo que simplesmente “achamos”, seja por exposição midiática ou por uma experiência específica, ganha a força de uma convicção e passa a ditar o nosso comportamento com relação a determinado grupo – independemente do que ele seja realmente.
Na trama do filme, é possível observar a força que ganham essas nossas convicções, regulando as nossas atitudes cotidianas e, inclusive, impedindo que sejam tomadas atitudes mais “racionais”. É por isso que não acreditamos no chaveiro que nos adverte que a porta está frouxa e que é preciso trocá-la. Ora, o chaveiro faz parte de um grupo étnico, social e cultural que não o nosso. Não compartilha, portanto, das mesmas coisas que eu. Razão pela qual, é impossível que eu lhe tenha alguma confiança. Sei que ele vai me prejudicar, deve estar cheio de segundas intenções.
A situação acima, visível no filme, é apenas um dos exemplos da desconfiançaexistente entre os grupos culturais diversos, fruto, quase sempre, apenas dos atributos impostos aos outros. Não é, portanto, uma atitude baseada em argumentos racionais. Essa relação é visível quando o mesmo chaveiro, apenas devido à sua aparência, recebe a desconfiança da personagem de Sandra Bullock.
É interessante observar o que Rocha fala sobre o processo de fazer o “eu” se tornar superior. Ele lembra que, dessa forma, há um “reforço da identidade do ‘nosso’ grupo”. É uma tentativa de defesa que temos diante de um ambiente que, a princípio, nos é hostil. No filme, vemos isso quando um dos assaltantes negros expõe conceitos e opiniões sobre a relação entre o seu grupo racil e os brancos. Fica clara, nesse ponto, não apenas a distância que os separa, mas também a necessidade do grupo em se fortalecer e só prejudicar, na visão deles, aqueles que nos causam alguma espécie de mal.
“Não assaltar um negro”, por exemplo, seria justamente reforçar a identidade dos elementos desse grupo. Ao mesmo tempo, o assaltante faz críticas ao comportamento esterotipado de alguns membros de seu próprio grupo, e propõe maneiras de ser que também acabam o segregando dos demais – visivelmente, dos brancos.
Essa separação não se faz, como poderia se pensar, apenas entre grupos historicamente divididos. A visão etnocentrista e a necessidade de impor os nossos próprios padrões, por quaisquer que sejam os motivos, faz com que também os árabes, os chineses, os mexicanos e tantos outros sejam vistos com uma ótica distorcida e geralmente preconceituosa. Os assaltantes atropelaram um chinês. Parece incrível que a questão da nacionalidade possa ter peso na hora de decidir se vão prestar auxílio ou não. Percebe-se, novamente, nessa passagem, quão fortes podem se tornar os valores de nosso grupo com relação ao grupo do “outro”.
O policial loiro que, no filme, separa-se de seu parceiro porque ele comete atitudes preconceituosas com os negros, além do abuso de poder, é um personagem extremamente fértil para ser analisado. A sua atitude revela, num primeiro momento, uma sensibilidade maior em relação ao “outro”. Visivelmente, não era uma pessoa “do seu grupo” que ele estava defendendo. Teria o policial então uma capacidade maior de “relativizar” as outras culturas, considerando o valor das potenciais diferenças?
Atitude semelhante demonstra ao reecontrar o produtor negro, e fazer com que escapasse da polícia. Mas ao mesmo tempo, a situação muda de figura quando ele encontra um dos assaltantes negros. Ao se desentender com ele, e por fim sacar a sua armar, atirar e matá-lo, a atitude do policial suscita algumas interessantes reflexões. Mesmo com a maior sensibilidade, percebemos que há situações em que não é possível dissociar o comportamento da pessoa com os atributos que acreditamos pertencerem ao seu grupo étnico ou racial.
Por mais que ele não acredite naquilo, há um referencial vindo da própria sociedade que o impele a agir daquela maneira em situações de conflito. É como se o etnocentrismo, ou os seus reflexos, pudessem ser uma espécie de herança da sociedade, como se já pertencessem ao “senso-comum”, e contra os quais nem mesmo as nossas opiniões poderiam lutar.
Ao mesmo tempo em que as várias histórias do filme acabam se cruzando, elas mostram que os diferentes grupos étnicos e sociais podem, a qualquer momento, precisar do auxílio do “outro”. A atitude que tomamos diante dessas situações revela o nosso grau, maior ou menor, de etnocentrismo. O conceito de Rocha para “relativização”, em oposição ao etnocentrismo, é encontrado em poucos momentos dentro do filme “Crash – No Limite”.
Como o autor afirma, “relativizar é sempre mais complicado, pois nos leva a abrir mão das ‘certezas’ etnocêntricas em nome de dúvidas e questões que obrigam a pensar novos sentidos para a compreensão da sociedade do ‘eu’ e da sociedade do ‘outro’” (p. 54).
Assim, vemos a “teimosia” dos personagens em aceitar que os outros grupos possam ter comportamentos diferentes, e mesmo bondosos, com relação a nós. Essa “surpresa” nas atitudes quebra as nossas convicções sobre aquele grupo e, por isso, fazemos o possível para enfrentá-la e refutá-la.
Talvez seja possível ainda relacionar a própria estrutura do filme com os conceitos e teorias que se preocupam em estudar o etnocentrismo. No filme, são várias histórias correndo soltas, livres. Os personagens não se conhecem, a princípio. No decorrer do filme, eles podem até vir a se encontrar e se relacionar de alguma maneira. Mas, em essência, as suas histórias são diversas e separadas. Não é, então, a história específica de determinados personagens, com começo, meio e fim, da forma que estamos mais acostumados.
Ora, há uma relação importante a se fazer quando constatamos que o evolucionismo pregava uma história “única e universal”, do “primitivo” para o “civilizado”, e daí, constantemente, para a evolução. O pensamento difusionista, por sua vez, tratato por Rocha (p. 58), não considera que exista uma história apenas, mas várias, e que cada cultura tem a sua, particular e específica, com os seus próprios referenciais.
É possível então fazer um espécie de metáfora explicando o fato da história do filme “Crash – No Limite” não ser única e uniforme.
O “nó” desfeito por Durkheim nos seus estudos antropológicos refere-se à afirmação de que “o social não se explica pelo individual”. A frase, a princípio simples, não é lembrada pelos personagens do filme nas situações conflituosas, onde a atitude de uma pessoa isolada pode muito bem determinar um estereótipo para todos os demais.
O encontro do “eu” com o “outro”, numa sociedade que cada vez mais valoriza a competição e que costuma se segregar ainda mais, pode render resultados bastante interessantes e mesmo harmoniosos. Sofre-se tanto hoje em dia, e uma coisa bela como a diversidade não pode ser mais um motivo para vivermos sempre “no limite”.
O filme termina com uma bela canção do Stereophonics, chamada “Maybe Tomorrow”, e que faço questão de deixar o video-clip
Nós deveríamos ter Antropologia em todos os períodos!
Quais grupos distintos encontrados no filme Crash no limite?
Qual caracteristica de cada um deles??
Convivência retratada pelo diretor é presente apenas nos EUA?? Qual situação semelhante conhecida??
As atitudes dos representantes das diversas etnias,quando há encontros,apresentam reações semelhantes?? Descreva -as
Por favor…..preciso dessas respostas me ajude
Obrigado