Embasado em Nelson Traquina (“Teorias do Jornalismo” – Volume II, 2005), tento, humildemente, descobrir características do Caso Isabella que possam ter influenciado para ele ter se tornado notícia e, mais do que isso, o motivo de continuar sendo notícia mesmo depois de tanto tempo do fato ocorrido e consumado.
Traquina elenca uma série de valores-notícia: são aqueles características que tornam um fato mais propenso a virar notícia. Quando maior for o número desses valores, maior o grau de noticiabilidade daquele determinado acontecimento. O autor divide os valores-notícia entre critérios de seleção e de construção da notícia.
Os valores de seleção se referem, justamente, às qualidades do fato. E qual o primeiro valor-notícia na teoria de Traquina? A morte. Vemos aí que o primeiro desses critérios já foi totalmente preenchido no caso Isabella. Afinal, a menina Isabella morreu, e muitas pessoas viram notícias quando morrem. Isso tem relação com aquela velha (e legítima) teoria das bad news – pois as notícias ruins sempre são ótimas para o jornalismo.
O segundo valor-notícia, refere-se à notoriedade dos envolvidos. Pessoas famosas e conhecidas são mais propensas a virar notícia. Não era, naturalmente, o caso de Alexandre Nardoni, nem da madrasta, nem da mãe, e muito menos da Isabella.
O valor seguinte é a proximidade, especialmente geográfica, mas também cultural. Ora, é visível que o caso extrapolou em muito a região em que aconteceu, de modo que podemos desconsiderar a proximidade geográfica como fator relevante para o caso ter se tornado notícia. Em termos culturais, a vida do casal, a princípio, não diferia muito da vida do brasileiro médio – o que pode ser um fator a mais a se considerar.
O próximo valor-notícia é muito interessante: a relevância do fato. Trata-se do impacto que ele irá causar na vida das pessoas. Ora, a morte de Isabella Nardoni não causará impacto senão na vida das pessoas envolvidas diretamente e na vida daquelas que mantinham algum tipo de relação com o casal e com a mãe. De modo que, a níveis de interesse público, o caso não contém nenhum elemento.
Também há o valor-notícia novidade. O Caso Isabella virou novidade no dia seguinte ao acontecido. Era um fato do qual ninguém tinha conhecimento, dotado de uma grande gama de acontecimentos totalmente novos e que não haviam sido noticiados. E as notícias seguintes, depois que a população já havia tomado conhecimento do caso, certamente procuravam buscar alguma coisa de novo, uma informação que ainda não havia sido noticiada. Mesmo depois de tanto tempo, essa continua sendo uma das motivações do jornalista para noticiar o Caso Isabella, já que, por menor que seja, sempre há uma informação adicional – que tanto pode ser relevante ou não, mas que, nesse valor-notícia, só interessa pelo caráter de ineditismo.
O fator tempo, por sua vez, engloba várias maneiras de ser. Uma delas é justamente a atualidade – e o caso Isabella é um caso atual. Outra, refere-se a “efemérides” – aqueles fatos que fazem aniversário. Esse valor-notícia fez sentido quando seria o aniversário de Isabella. Valeu-se desse acontecimento temporal para justificar uma série de pautas novas sobre o caso. Com Anna Carolina Jatobá presa, chamou-se a atenção para o fato dela passar lá o Dia das Mães – novo acontecimento temporal. E a terceira forma do valor-notícia tempo é aquela que maior representatividade tem no Caso Isabella. Ela diz respeito à uma exposição maior de determinado acontecimento no noticário, por conta do impacto que causou na sociedade. Ora, o Caso Isabella certamente causou algum impacto na sociedade. Pessoas ficaram chocadas com o acontecimento – ainda mais depois dos resultados apresentados pela perícia. Todos os meios de comunicação que noticiam o caso fazem questão de afirmar que é grande o “clamor popular” e a “indignação da sociedade” em cima do caso. Isso, segundo essa visão, justificaria que notícias relacionadas ao tema continuassem sendo veiculadas, mesmo tanto tempo depois.
A notabilidade diz respeito aos fatos palpáveis e tangíveis. Nesse caso, o fato era que uma menina morreu depois de cair do sexto andar do Edifício London, do apartamento do pai e da madrasta, que se transformaram em suspeitos, alegando um terceiro elemento no local. Não se tratava, portanto, de um fato abstrato e difícil de definir, como por exemplo, as condições em que Isabella vivia, ou o sentimento do pai quando chegou em casa naquela noite. Essas coisas não eram palpáveis naquele momento, e só passaram a ser nos desdobramentos do caso, especialmente depois que a perícia entrou em cena. Dessa forma, quando o caso foi noticiado pela primeira vez, foram as características mais visíveis do caso que contribuíram para que se tornasse notícia. Há alguns critérios de notabilidade, entre os quais está a “inversão”, o contrário do que é normal. Naturalmente, e felizmente, não é normal que crianças de cinco anos caiam do sexto andar do prédio do pai e da madrasta. Outros critérios, como a quantidade de pessoas envolvidas, a falha, o insólito e excesso/excassez não parecem serem aplicadas no Caso Isabella.
Traquina chama de valor-notícia o inesperado, referindo-se às notícias que chegam de repente e que transformam totalmente a redação do jornal, fazendo com que os jornalistas tenham que se voltar exclusivamente para aquele acontecimento. Assim foi com os atentados de 11 de Setembro, como exemplifica o autor. O Caso Isabella, no entanto, não teve tanta repercussão na redação – pelo menos não tão logo o caso aconteceu. Por pior que tenha sido, provavelmente não houve jornais a nível nacional que suspendessem suas edições e lançassem em banca uma edição extra com os acontecimentos do Caso Isabella – que aconteceram praticamente na virada de um dia pro outro (e pior, de um sábado pra domingo!). Também não houve Plantão da Rede Globo tão logo a menina tenha morrido. O “inesperado” refere-se a um mega-acontecimento que possui uma imensa quantidade de valores-notícia. Por maior que tenha sido o destaque dado ao Caso Isabella nas televisões na noite do domingo e nos veículos impressos de segunda-feira, não corresponde, em relação a “trasnformação da redação”, a fatos como a morte de Ayrton Senna, por exemplo.
O valor-notícia conflito ou controvérsia é um dos que mais se aplica ao caso em questão. Isso porque trata da violência, física ou simbólica. No Caso Isabella foi, escandalosamente visível, a violência física. Traquina afirma que a violência pode representar uma ruptura na ordem social. O que foi feito com a menina Isabella foge daquilo que temos como padrões de ordem e de comportamento na nossa sociedade. A violência representa uma ruptura entre aqueles que pertencem legitimamente à nossa sociedade e aqueles que estão de fora dela. Assim, as acusações contra Nardoni e sua esposa fazem com que, pela anormalidade dos fatos, eles não compartilhem dos mesmos valores que nós e, assim sendo, não pertençam ao nosso convívio – já que as pessoas, naturalmente, não esperam que se faça o que foi feito com Isabella. E isso contribui para que o fato vire notícia.
A infração está intimamente ligada à violência. Esse valor-notícia refere-se a transgressão das regras. Quem asfixiou Isabella e quem a jogou pela janela, notadamente estava transgredimento regras aceitas pelas sociedade, em que atos dessa natureza são inadmissíveis. A cobertura de um crime, em geral, pode ser bastante breve e rotineira. Não foi o que aconteceu com o Caso Isabella. Para que uma história envolvendo crime ganhe maior atenção e espaço no jornalismo, basta que seja um crime mais violento (a perícia está aí para mostrar de que forma se deu a morte de Isabella), com um maior número de vítimas, o que não foi o caso, e a soma de outros valores-notícia. Atuando em conjunto, esses fatores tendem a fazer com que um crime consiga transpor a cobertura rotineira que se faz nessas situações, se tornar comum no notiário e receber abordagens mais aprofundadas.
São esses os critérios substantivos dos valores-notícia de seleção, aplicados no Caso Isabella conforme as teorias de Traquina. Os critérios contextuais, por sua vez, dizem respeito aos procedimentos de produção da notícia.
Entre eles, está a disponibilidade e a facilidade em ter acesso à cobertura de determinado acontecimento. Pensa-se sempre no que será preciso para noticiar o caso, e se valerá a pena dispor dessas necessidades, conforme os outros valores-notícia atribuídos ao acontecimento. No Caso Isabella, as televisões parecem ter grande facilidade em cobrir o caso – e, não raro, costumam se vangloriar da situação, de modo a fazer o público acreditar que eles estão fazendo tudo o que é possível para informá-lo. É por isso que temos tantas “informações exclusivas” de equipes que acompanharam “o dia inteiro” tudo que aconteceu no Caso Isabella.
O equilíbrio é um valor-notícia interessante. E creio que é por pecar nisso que grande parte da sociedade está revoltada com os meios de comunicação que cobrem o caso Isabella. Traquina explica que “a noticiabilidade de um acontecimento pode estar relacionada com a quantidade de notícias sobre este acontecimento ou assunto que já existe ou que existiu há relativamente pouco tempo no produto informativo de uma empresa jornalística” (p. 89). Assim, toda vez que surge um fato novo no Caso Isabella, ele é noticiado. Mas, de alguma maneira, mesmo quando não há muito o que falar, ainda assim se fala sobre o caso. De modo que acaba se criando um desiquilíbrio nas temáticas dos jornais – principalmente de televisão. Há o privilégio, muitas vezes assumido, em se falar sobre o caso, esquecendo de outros assuntos que talvez também fossem passíveis de tratamento jornalístico. O valor-notícia equilíbrio diz respeito, justamente, a preocupações desse tipo.
A visualidade trata das imagens visuais agregadas a determinado acontecimento, e a qualidade das mesmas. No caso Isabella, se vê de forma muito clara a busca pela imagem perfeita. Tanto na tentativa de se colocar um helicóptero sobrevoando o prédio no momento da reconstituição do crime, quanto no momento da prisão do casal, e mesmo nos lugares em que mãe de Isabella vai, o que se vê é a busca pelas melhores imagens, pois sabe que, assim, o material será mais facilmente noticiado. Especialmente em televisão, a imagem é que dita a qualidade do conteúdo.
A concorrência é sempre levada em conta no momento da produção, e não seria diferente ao noticiar o Caso Isabella. Ora, se uma das grandes emissoras noticia o caso, com destaque, como é que a outra não irá noticiar? Ao mesmo tempo, existe a busca pelo furo, e por tudo que é exclusivo. Quando se consegue algo assim, não se hesita – ao menos na televisão, durante o caso Isabella – em mostrar que foi aquela emissora que conseguiu, com exclusividade. Dessa maneira, é como se o veículo tentasse se firmar e se legitimar perante a sociedade e, de certa forma, passar a perna nos concorrentes.
Outro valor-notícia desse grupo é o dia noticioso. Há dias mais férteis que outros na produção de notícias. Talvez, quando não há outro assunto, possa se privilegiar a divulgação de novas matériaa sobre o Caso Isabella – mesmo quando não se tenha muito a dizer.
São esses os valores-notícia de seleção, em seus dois grupos. Os outros valores dizem respeito à construção da notícia, e são os seguintes:
Simplificação. Quanto menos ambígüo e complexo for um fato, maior a possibilidade de se transformar em notícia. Traquina ainda fala que “uma notícia facilmente compreensível é preferível a uma outra cheia de ambigüidade (p. 91). O Caso Isabella, no entanto, desde o início esteve sustentado em outra esfera, que é a do mistério – portanto, com discursos ambígüos, deixando dúvidas e mais dúvidas na cabeça de todos que os acompanhavam. Pode ter havido então, uma tentativa de simplificar o caso, apressando o desenrolar dos acontecimentos, e condenando sumariamente o pai da menina – porque assim, ficaria mais fácil para a notícia ser assimilada. Ao tentar reduzir a polissemia de um caso tão misterioso, o jornalista corre o risco de pender demais para um lado que pode não ser necessariamente o certo.
Amplificação. Quanto mais amplificado o acontecimento, mais fácil da notícia ser notada. Eis a lógica: quando se fala “o crime que revoltou o Brasil”, “o crime que chocou o país”, e coisas do gênero, está se amplificando a dimensão do acontecimento. Isso pode tanto ser verdadeiro como uma tentativa de legitimar o destaque e os enfoques dados ao tema.
A relevância, outro valor apontado, diz respeito à capacidade do jornalista em tornar o acontecimento relevante para as pessoas, mostrando que ele tem um sentido na vida delas. No Caso Isabella, parece visível que a maioria dos jornalistas não consegue fazer isso, e o número de pessoas que se rebela contra as notícias sobre o caso só está aumentando. Afinal, as pessoas não enxergam relevância na vida delas para tantas informações, o dia inteiro, em todos os veículos.
Já a personalização diz respeito à capacidade de personalizar uma acontecimento, de modo a deixar mais fácil para o público identificar o “positivo” e o “negativo” do caso. É o enfoque maior na pessoa envolvia no acontecimento. Assim, se criam ligeiras biografias de toda a família Nardoni, e de toda a família Jatobá, de modo a tornar o caso mais palpável para o público que, munido das informações que surgiram dessa personalização, poderá tomar partido mais facimente. Como Traquina lembra, muitos são os estudos que falam sobre o interesse das pessoas em saber sobre a vida dos outros.
A dramatização é outro valor-notícia facilmente identificado na televisão. É o reforço do lado emocional. Choros, lágrimas, declarações emocionadas… Tudo que se viu nas notícias sobre o Caso Isabella. Buscou-se mostrar o sofrimento da mãe, a crueldade contra a filha, a frieza do pai e da madrasta, e muitos outros aspectos que o sensacionalismo trata de incorporar em casos assim.
Há ainda a questão da consonância. Ora, o Caso Isabella já é de conhecimento público. Já virou notícia há muito tempo. Assim, tudo o que tiver relacionado a esse caso, tem maior chance de se tornar notícia novamente – porque, afinal, já há um referencial, e a nova notícia já vai estar inserida numa “narrativa” estabelecida e de conhecimento de todos. Isso corresponderia às expectativas do público, que tem preferências pela notícia que pode ser interpretada dentro de um contexto conhecido.
São esses os valores-notícia apontados por Traquina e que tentei verificar a correspondência com o Caso Isabella. Há ainda aqueles valores intrínsecos às organizações jornalíticas, cujas rotinas estão sempre influenciando os valores-notícia.
Percebe-se que há uma grande quantidade de valores envolvidos, tanto na seleção do Caso Isabella para virar notícia como no tratamento dado ao caso. Na seleção de critérios substantivos, envolve morte, proximidade cultural, a novidade, o prolongamento de notícias impactantes, a anormalidade, o conflito e a infração – sem levar em conta a relevância do tema, e de vez em quando com alguma coisa de efeméride. Nos critérios contextuais, envolve a disponibilidade, a visualidade, a concorrência e o dia noticioso – e peca no eqüilíbrio, como boa parte da sociedade já percebeu. Na construção da notícia, envolve a sua tentativa de simplificação, a sua amplificação para uma dimensão nacional, a personalização dos envolvidos, a constante dramatização (talvez o valor-notícia mais visível) e a consonância, que legitima a repetição de notícias sobre o tema – novamente, não é bem sucedida a busca em tornar o fato “relevante” para o público.
O Caso Isabella merece análises bem mais aprofundadas do que essa que fiz. No entanto, é um primeiro olhar que lanço sobre o caso, fruto da minha constante insatisfação com o modo como o caso tem sido tratado na mídia, especialmente a televisiva. Reflexões sérias dos póprios profissionais sobre esse caso talvez impediriam o aumento da falta de credibilidade dos meios de comunicação perante a sociedade.