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Uma das impressões que se tem ao ler a obra “A Sociedade Enfrenta a Sua Mídia – Dispositivos Sociais de Crítica Midiática” (Paulus/2006), de José Luiz Braga, é a de que dificilmente certos antagonismos serão capazes de explicar com clareza os processos da mídia. E, de fato, o autor nos mostra que divisões clássicas como “apocalípticos e integrados”, cujo sentido existe desde a Grécia Antiga, passando por “mídia” e “sociedade” e, mais especificamente, a “produção” e “recepção” não são suficientes para que se compreenda as relações midiáticas em sua totalidade. Ao contrário, elas poderiam apenas confortar opiniões. O autor propõe uma perspectiva diversa, que busca interligar esses pólos opostos através da criação de um outro: o sistema de respostas sociais, ou o “sistema de interação social sobre a mídia”.

Através desse sistema, seria possível também avançar no conhecimento da crítica, um dos retornos possíveis. Esse terceiro campo proposto por Braga, indo além da produção e da recepção, abriga as respostas que a sociedade gera depois de receber o que foi produzido. Em suma, aquilo que se conversa sobre o que se consome. As pesquisas, de um modo geral, tendem a se concentrar na produção ou na recepção. Com o sistema de respostas sociais, seria possível unificar essas estruturas, colocando-as em um mesmo patamar de importância e facilitando o estudo das articulações entre eles. Dessas interações, é possível desenvolver o pensamento crítico na sociedade.

Quando a sociedade fala sobre a mídia, ela também seria capaz de fazer a crítica – que, portanto, não se restringe ao ambiente jornalístico ou acadêmico. Uma conversa de bar sobre a mídia, nesse sentido, também seria considerada crítica. A consciência da existência da crítica de sociedade, que não é melhor nem pior que as críticas especializadas, chama a atenção para a influência que ela é capaz de causar para as outras críticas e para os produtos midiáticos.

Também se usa a própria mídia para dar respostas aos seus processos. Braga desmistifica a opinião de que, para se fazer uma crítica da mídia com qualidade, é preciso se distanciar da produção midiática. Agindo dessa maneira, a possibilidade da crítica em produzir efeitos nos usuários daquilo que é criticado se torna muito menor. Os primeiros capítulos do livro são utilizados para situar o leitor dentro da nova perspectiva teórica que o pesquisador propõe, ressaltando as possibilidades que ela abre na própria sociedade – e fornecendo maior conhecimento crítico ao leitor. Braga também enuncia os critérios que lhe servirão de base, e então, na segunda parte do livro, analisa as especificidades de seus objetos empíricos, que, nesse caso, são alguns dispositivos de crítica existentes. São feitas esmiuçadas análises sobre a resposta social encontrada em cartas de leitores, em colunas de ombudsman dos jornais, em críticas jornalísticas de cinema e de televisão, no site “Observatório da Imprensa”, nos livros de Ricardo Noblat “A Arte de Fazer um Jornal Diário”, de Arlindo Machado “A Televisão Levada a Sério” e de Luis Nassif “O Jornalismo nos Anos 90″, além do site “Ética na TV” e nas próprias notícias sobre a mídia.

Com essa gama de dispositivos de crítica midiática (que o autor faz questão de ressaltar que é uma parcela muito reduzida das possibilidades), Braga analisa atentamente os pontos de vistas, as tensões, os objetivos, os procedimentos, os critérios e as interlocuções de cada um, verificando se aquilo a que se propõem enquanto crítica é de fato o que está representado no dispositivo (e pode-ser ver que algumas vezes não é o que acontece). A existência desses dispositivos, a despeito da sua produtividade, já é uma comprovação de que a sociedade enfrenta a sua mídia. Braga constata, além da diversidade de perspectivas nas respostas sociais analisadas, que há uma pluralidade tão grande de mecanismos de enfrentamento que bastaria que aqueles já existentes fossem melhor utilizados para que a sociedade pudesse refletir e aprender mais sobre os processos midiáticos.

Essas reflexões se tornam ainda mais importantes se percebemos os efeitos que uma boa crítica pode causar na sociedade. Um texto crítico que busque orientar mais do que fazer julgamentos pessoais, contribui para que a população entenda os processos daquilo que está sendo criticado e, assim, se torne mais exigente quanto a eles. A crítica da sociedade seria capaz de, a longo prazo, modificar aspectos da própria produção – que, analisando o grau de exigência, tenderia a criar produtos midiáticos mais qualificados. É de grande relevância, portanto, que se busque a crítica da crítica especializada, como Braga faz em seu livro, para que ela não se preocupe apenas em conceituar os produtos como bons ou ruins, nem faça julgamentos meramente impressionistas ou fortemente indignados. A capacidade produtiva nesses casos se torna bastante reduzida, e não se contribui para a aprendizagem da população diante do que está sendo objeto da crítica. Na medida em que se fornece conhecimento “pedagógico”, a crítica é capaz de estimular as próprias percepções de quem a recebe, alimentando o debate e a conseqüente busca pelo aperfeiçoamento. Ao invés de dar respostas definidas, a crítica deve buscar colocar perguntas na cabeça do usuário, estimulando a crítica da sociedade.

Em meio a essas questões que permeiam o seu livro, Braga lembra também que esse sistema de interação sobre a mídia ainda é bastante preliminar no Brasil, em especial no que se refere a crítica de televisão – que corre o risco de ser excessivamente moralista e, portanto, pouco produtiva aos usuários. O estudo da crítica midiática não é importante apenas em termos de conhecimento e de pesquisa. As abordagens de Braga, se levadas em consideração, são capazes de, no mínimo, aperfeiçoar nossa relação com os meios de comunicação. Nesse sentido, os debates sobre a mídia deveriam acontecer em freqüência e profundidade muito maiores do que habitualmente acontece, para então amenizarmos alguns dos reflexos a que fomos levados devido a uma baixa valorização da educação.

Quem assiste ao CQC sabe da existência do quadro “Proteste Já” –  cujo objetivo principal não é o humor, embora ele também não esteja ausente. O quadro consiste na cobertura de denúncias das mais variadas – um conjunto habitacional construído em cima de um lixão, alunos que não recebem o material e o uniforme prometidos, hospitais construídos mas que não são utilizados, etc. Todos esses problemas evidenciam a ineficiência de autoridades responsáveis e mostram a urgência com que deveriam ser solucionados. De modo que não há como negar uma grande capacidade jornalística no quadro. Vou mais além e digo que, com ele, o CQC consegue, não raro, resultados melhores do que conseguiria o jornalismo tradicional.

Explico-me: uma das grandes motivações para o bom jornalismo é, justamente, a denúncia de injustiças sociais e a natural cobrança feita em cima dos responsáveis. Uma matéria de um telejornal pode muito bem evidenciar a injustiça e, dependendo do grau de exposição, fazer um “alarde” suficiente para que medidas sejam tomadas e o problema seja resolvido. Naturalmente, não é sempre que isso acontece. Há casos que, embora noticiados no jornal, geram no máximo respostas paliativas das autoridades – sempre muito bem escritas, embora, em geral, não digam grande coisa. E, pior que isso, os próprios jornalistas podem deixar de lado o caso, com o passar do tempo e o surgimento de novos casos de denúncia.

As denúncias de um jornal insinuam o que querem dizer – aquela tal de imparcialidade impede que as coisas sejam ditas de forma clara. Em geral, eles são conduzidos de modo a fazer o telespectador perceber o absurdo daquilo que está sendo mostrado, a grande injustiça que aquilo representa e, dessa forma, naturalmente se voltem contre os responsáveis – mas nada disso é dito pelo jornalista, que continua com sua aparência de neutralidade, embora não existam dúvidas sobre de que lado está se posicionando.

No “Proteste Já”, não há pretensão de ser imparcial. Rafinha Bastos (que é o cara ideal para fazer o quadro) também não tem a mesma obrigação diplomática que teria um jornalista. O lado mais “escrachado” do programa favorece amplamente o tipo de conduta de Rafinha, que pode muito bem “falar na cara” das autoridades aquilo que pensa – algo que os jornalistas não poderiam fazer. E ao agir assim, Rafinha cria uma identificação natural com o telespectador, que, em geral, adora quando as autoridades “ouvem umas verdades” de vez em quando, algo que numa matéria tradicional seria apenas insinuado.

Mas a grande capacidade do quadro não está apenas em poder dizer aquilo que pensa com mais liberdade do que numa matéria tradicional. Também está na reação que essa atitude gera naqueles que devem respostas aos interessados do problema em questão. Dessa vez, eles não podem mais dizer o que bem entenderem. Não bastam mais frases elaboradas e retóricas, que tentam apenas suavizar uma situação que não se pretende mudar. Ora, Rafinha está atento à essas artimanhas e deixa os responsáveis tão encurralados que a eles não cabe outra coisa senão concordar que há um problema e que algo deve ser feito com urgência para corrigí-lo. E se não for feito, pior para eles.

O “Proteste Já” abraça o caso e continua com ele até o fim – custe o que custar, como evidencia o nome do programa. Estipula-se um prazo para a solução, e ao término dele, o CQC irá conferir. Os “culpados” sabem que não se trata de um jornal, para o qual bastaria emitir uma nota de esclarecimento. E por mais que o problema não chegue a ser resolvido inteiramente, os envolvidos foram expostos no programa e (como não podia deixar de ser) foram debochados, o que, no mínimo, garante uma “vingança” que não é possível assistir num telejornal. Penso que os efeitos causados (a simpatia do telespectador, o desconforto dos responsávéis e a natural resolução do caso) são os mesmos buscados pelo jornalismo convencional, mas com uma “cara-de-pau” muito maior, e que normalmente é extremamente útil para resolver os problemas. Parece-me que, se os jornalistas fizessem as mesmas perguntas e agissem de modo parecido ao de Rafinha Bastos, estaríamos mais próximos de conseguir efetivas soluções por parte das autoridades.

Há muitas pessoas com entendimento suficientemente claro para perceber a má atuação dos meios de comunicação no Caso Eloá (a bola da vez para a imprensa ). Convém então pensar como a participação do jornalismo poderia ser melhor conduzida. E essa não é uma tarefa das mais fáceis. Sabemos, de antemão, que não deveríamos ligar para seqüestradores, nem filmarmos atendimentos em ambulância, nem velórios, nem enterros. Também seria interessante se evitássemos a promoção da nossa própria empresa, através de jargões do tipo “exclusivo”, “nossa equipe”, etc. E naturalmente, evitar transformar o drama alheio em um circo que só tem o objetivo de fazer com que nossa audiência aumente.

Mas como noticiaríamos o caso então? Certamente iria virar notícia. Não sei exatamente de que maneira. A sugestão é exatamente fazer o oposto daquilo que se critica (e que, na maior parte das vezes, não parece algo tão difícil assim). Sabemos que a notícia deveria ser dada com uma repercussão muito menor (talvez não devêssemos provocar a comoção popular apenas para dizer que ela é legítima). Pode-se dizer que um caso de 100 horas de seqüestro merecia destaque – o que é verdade. Mas quando o seqüestro começou (e a espetacularização também) o tempo não havia chegado a tanto. E certamente há muitos casos do gênero, que também envolvem adolescentes e que não viram notícia. Penso que a mídia não reflete com o devido cuidado sobre aquilo que merece ganhar destaque ou não, e simplesmente embarca no fato – que afinal, é o público quer saber, segundo o argumento geralmente dado.

O que não se sabe até onde se inicia esse ciclo: o assunto ganha destaque por causa da comoção do público ou a comoção do público faz o assunto ganhar destaque? Essas coisas se confundem, se misturam, e creio que não é possível atribuir totalmente a responsabilidade a alguma das duas afirmações. Sou levado a crer, entretanto, que, se for pra ter uma culpada maior, vai ser a mídia. Enfim, é ela que leva o caso até nós. E ela faz isso carregando o fato de emoção. Depois de noticiar, diz que o caso teve comoção popular. Certamente teve, e certamente ela contribuiu de forma significativa para tal. Embora não assuma, naturalmente.

Me parece que a mídia não parece muito interessada em discutir a mídia. Os espaços alternativos, nesse ponto, se tornam bastante importantes porque permitem que se pense a respeito com mais atenção. Seria muito interessante se o jornalismo explicasse alguns dos seus processos para a população comum, até para que ela desenvolva de forma mais eficiente seu pensamento crítico. Isso não acontece. Caso fosse assim, seria possível exigir uma cobrança muito maior em relação aos meios de comunicação, o que provavelmente impediria que casos tristes como esses virem mero sensacionalismo.

Reflitamos, pois.

O serviço de buscas do meu blog mostra algumas pesquisas interessantes, do tipo: “Foto de Eloá no caixão”. Eu realmente não sei qual o interesse perverso por trás dessa curiosidade. O mesmo vale para esse pessoal que fica divulgando o perfil no orkut das vítimas, e do próprio Lindemberg. Não, não interessa saber de quais comunidades a Eloá participava, quem eram os seus amigos, quais as fotos que postava no orkut. Assim como não é de interesse descobrir fotos sobre tragédia (daqui a pouco começam a pipocar nos emails supostas fotos pós-assassinato, tiradas do celular de algum policial. Eu não duvido!).

Sinto decepcioná-los, mas aqui não terá nenhum vídeo ou foto da Eloá, nem viva e nem morta.

Shownalismo no Caso Eloá 2

A novela que o telejornalismo está fazendo do Caso Eloá teve um dos capítulos mais repugnantes hoje. Os jornalistas não hesitam em filmar e fotografar o velório e o enterro da menina. É uma falta de sensibilidade que se traveste de interesse público. Enquanto o caixão era descido, flashes e mais flashes iluminavam o cemitério. Tudo para ter a melhor imagem do momento EXATO em que tudo aconteceu. Essa neura que os jornalistas têm por fontes e imagens alcança níveis inacreditáveis em casos como esse (casos que o jornalismo adora). Enfim, o caso teve o desfecho ideal para essas pessoas. Assunto suficiente para que seja feita uma nova novela, em que a vida de Eloá possui muito interesse, já que é o que mais dá audiência.

Ontem, a notícia foi: “Nayara chora ao saber da morte de Eloá”. Eu não tenho dúvida nenhuma de que, se pudessem, os jornalistas queriam filmar e fotografar o instante exato em que alguém contou a Nayara sobre o desfecho do caso. Ora, tudo em nome da informação, não é verdade?

Durante a semana, várias foram as notícias provocadas pelos jornalistas para manter o caso em evidência. Chegaram a perguntar para o Muricy Ramalho, técnico do Sâo Paulo, o que ele achava sobre o caso. Ora, pouco importa o que o Muricy acha sobre o caso. Ou melhor, importa tanto quanto aquilo que eu mesmo acho. O que define que a opinião dele seja notícia e a minha não? A notoriedade, naturalmente. O pior é que o Muricy embarcou nesse trama jornalística, respondendo a pergunta. “Se toca, Lindemberg”, falou ele, na quarta-feira. Também virou notícia o fato de que o governador José Serra visitou as duas moças no hospital. O que, a bem da verdade, não tem importância alguma. Um tola rotina protocolar, que só vira notícia porque tudo que um governador faz vira notícia.

Vamos ver quanto tempo a imprensa gastará para explorar a vida da pobre Eloá. No Caso Isabella, eles perderam a mão, e a população não aguentava mais ouvir notícias sobre o caso – embora tentassem provar o contrário. Tudo isso, repito, muito bem travestido de apelo popular.

Nesse momento em que escrevo, chamam a atenção para a atitude de Nayara, ressaltando seus gestos de amizade. Não digo que não seja verdade. De qualquer forma, isso é noticiado apenas porque o jornalismo precisa de heróis, vivos ou mortos. É a mesma lógica que acontece quando se trata das doações de órgãos de Eloá. Fulana recebeu o coração (e bem no aniversário dela!). São personagens muito úteis para o nosso bom e velho jornalismo urubu.

Shownalismo no Caso Eloá

O ramo sensacionalista do jornalismo (que, ao menos no caso da televisão, parece ser um número majoritário) está vivendo uma época fértil. Os acidentes da TAM e da GOL foram apenas indícios do que estava para vir. Pensava-se que o Caso Isabella havia sido o estopim. Ledo engano. Aí está o Caso Eloá para mostrar que, mais do que nunca, o que importa é o apelo popular, travestido de bom jornalismo.

A bem da verdade, o desfecho foi o mais agradável para os jornalistas urubus. A rendição de Lindemberg não promoveria toda essa gama de reportagens sensacionalistas. Não teríamos infográficos tão detalhados, mostrando como foi que tudo aconteceu. O assunto se esgotaria muito mais rapidamente. Convém, então, explorar ao máximo a miséria humana. E colocar a culpa apenas na polícia, jamais fazer qualquer espécie de auto-crítica.

É realmente algo a se pensar quando percebemos que jornalistas ligam para seqüestradores. Qual o objetivo? Interesse público? Certamente não. O jornalismo televisivo parece não medir esforços para conseguir imagens e informações inéditas. Enfim, dar o furo, passar a perna nas empresas concorrentes. É, em suma, um bom caso para o jornalismo. Não são outros os objetivos que fazem com que se filme o atendimento a Eloá na ambulância, através de uma pequena brecha deixada pela porta. As imagens precisam ser as melhores, as quais, coincidentemente, acabam sendo as mais dramáticas. A vida que está ali representa um papel muito claro: legitimar a nossa cobertura, e garantir que teremos todas as informações sobre o caso (exclusivo, exclusivo!).

O jornalismo, bom ou ruim, sempre está atrás de especialistas. Em casos como o de Eloá, eles são fundamentais. Ainda que não saibam nada sobre o caso, ou que saibam tanto quanto nós, que vemos pela televisão. De longe, eles palpitam sobre o que poderia ter sido feito. Naturalmente, nenhum deles moveu uma palha enquanto o caso se desenrolava. Mas para nós, os jornalistas, o importante é que eles representam o papel muito claro de falar mal da polícia e de provar que a tragédia era evitável.

Essa busca por especialistas acontecia mesmo antes do desfecho do caso. Durante a semana, Ana Maria Braga, por exemplo, conversou com um psiquiatra sobre o comportamento de Lindemberg. E ele não hesitou ao falar que o seqüestrador estava perdido e que não sabia o que fazer. Fico imaginando Lindemberg assistindo a televisão e ouvindo isso sobre ele mesmo. E esses psiquiatras e especialistas em tiro, em segurança e em casos de crimes passionais começam a pipocar aos montes, todos falando sobre como poderia ter acontecido. Essas pessoas são essenciais para o jornalismo.

Chegará a época do transplante dos órgãos de Eloá, e então teremos novos personagens para serem explorados pelo nosso bom jornalismo. A vida? Um detalhe que só é útil porque tem apelo popular.

Fui de má vontade assistir a palestra com o Serginho Groisman. Ora, era por causa dele que eu perdi a aula de Jornalismo Literário, a melhor aula da semana. Mas, como normalmente acontece, eu queimei a língua, e a palestra (argh, palavra horrível) foi extraordinária.

Não vou falar das histórias e situações que o apresentar contou, sempre com um humor finíssimo que nem sempre era entendido, nem dos momentos interessantes de interação com a platéia, e nem da pagação de pau. Vou destacar apenas alguns pontos jornalísticos apontados por Groisman, que são ainda mais relevantes se levarmos em consideração o veículo em que trabalha.

- Serginho diz que a televisão é um veículo superficial. Quem quiser se manter informado, não pode depender ela. As matérias de dois minutos não dizem nada. Ora, é isso mesmo que penso. O telejornalismo é o modo mais superficial de informar as pessoas, e não raro, apenas desinforma.

- O apresentador lembrou de um caso escabroso do Aqui Agora, quando estavam transmitindo ao vivo uma moça em cima de um prédio, querendo se jogar. E os manés transmitiram em rede nacional o seu suicídio. Serginho questiona até que ponto o jornalismo matou aquela guria. Até porque, se a guria tivesse certeza de que queria se matar, já teria se jogado bem antes. Ao contrário, estava indecisa. Aí olha pra baixo e vê uma câmera de televisão virada pra você. O caso havia se tornado público. Era preciso pular. E ela pulou. Bem, o Aqui Agora é antecessor do jornalismo da Record.

- O site do Altas Horas está errado. Televisão e internet precisam convergir urgentemente. De que adianta ver no site aquilo que já foi visto na televisão? Serginho quer fazer um site com o “espírito” do programa, e não com a sua reprodução.

- Há uma necessidade muito grande de unir entretenimento com informação. O Altas Horas tenta fazer isso, mais do que acontecia no Programa Livre. É uma saída bem interessante mesmo. Serginho diz também ter várias restrições quanto à programação do veículo em que trabalha.

- Por falar em Globo, concordei com ele quando falou que essa história de manipulação das mentes é balela. Um caboclo perguntou sobre a capacidade da emissora em alienar as pessoas. Serginho então perguntou se ele assistia a Globo. “Esporadicamente”, respondeu. “E esporadicamente você é alienado?”, devolveu. Essa história de achar que a Globo é responsável por todas as mazelas da sociedade já encheu.

- Serginho contou histórias que ilustram bem o jogo de cintura que o apresentador precisa ter ao mediar determinadas entrevistas. Quando não é a platéia que faz pergunta desagradáveis, é um Lobão da vida que solta o verbo.

- Outro ponto importante foi a liberdade apontada pelo apresentador ao descrever a principal característica para fazer um programa. Quando esteve no SBT, duvidou que encontraria a mesma liberdade que teve na Cultura. Pois encontrou, e diz que também na Globo é livre para fazer o seu programa.

- Groisman teve um projeto audacioso quando entrou na Globo. Fazer um programa da meia-noite às quatro horas da manhã, de sábado pra domingo, com links pelo Brasil inteiro. Agora ele acha absurdo, mas na época achou que poderia ser interessante.

Todos os movimentos em falso (literalmente!) de um rei não passam despercebidos. Não há como ser livre, tudo vira notícia. Eis o tombo do Rei da Espanha. Veja o vídeo, mas pense bem nas razões que criam essa curiosidade em você.

http://www.elpais.com/videos/espana/Traspie/Rey/finalizar/discurso/cena/Circulo/Empresarios/catalanes/elpvid/20080529elpepunac_14/Ves/

Mais uma da seção “Notícias Que Vão Mudar o Mundo”. Só podia vir do Terra mesmo. Fala sério, uma notícia dessas significa muito na sua vida né? O único valor-notícia presente é a “relevância” dos envolvidos. E nada mais. É jornalismo de celebridades, jornalismo cor-de-rosa, jornalismo de fofoca, ou qualquer coisa que o valha:

Após o jantar de quinta-feira, Alexandre Pato e Marcelo “entraram em campo” defendendo o Milan e o Real Madrid, clube em que atuam, respectivamente. No duelo virtual, o ex-jogador do Internacional levou a melhor, com um placar de 4 a 3.

O atacante Ronaldo, que se recupera de uma cirurgia no joelho esquerdo e não atua pela Seleção desde a Copa do Mundo de 2006, fez dois gols na partida virtual.

Após a brincadeira, o lateral-esquerdo do Real Madrid teve de ouvir a gozação do companheiro. “Foi de virada”, disse Alexandre Pato, que ainda viu sua versão virtual ser eleita o melhor em campo, com nota 7,5.

Segundo o Yahoo, Alexandre Nardoni teria soltado a seguinte pérola, quando tentava explicar a repercussão do Caso Isabella: “O governo fez isso para esconder os problemas que estão acontecendo no País”. Até que se prove o contrário, governo e imprensa são coisas diferentes. Nardoni seria mais coerente se culpasse a Record – que percebeu o apelo popular e passou a dedicar toda a sua programação ao caso, fazendo com que se criasse uma reação em cadeia que até a Globo se rendeu.

Quem liga a televisão pela manhã naquele “Hoje em Dia” perde algumas manifestações interessantes do “jornalismo de fofoca”. Britto Jr, que um dia foi jornalista, em companhia de Edu Guedes e uma fofoqueira, estavam entrevistando Serginho Malandro. E a pergunta que não queria calar era: “Serginho, você pegou a Xuxa?”. Com outras palavras, naturalmente. Serginho disse que não, mas foi evasivo. Como bons jornalistas de fofoca, os três insistiram. “Não mesmo? Você pode garantir que nunca beijou a boca dela?”. Serginho nega, mas não de forma tão convincente. “Fala a verdade, Serginho”. Ele diz que chegou a gostar dela. “E ela, gostava de você? Vocês tiveram alguma coisa?”. Serginho diz que isso teriam que perguntar pra ela. A todo custo os três tentam arrancar alguma declaração comprometodra. Eles queriam ouvir que sim, que eles haviam se beijado e se amado loucamente. E Serginho dava respostas dúbias, não colaborava com o jornalismo de fofoca do programa. E assim foi, até eu me encher e desligar a tv.

Essa é a emissora que quer se tornar a melhor do país.

O escritor Cristóvão Tezza deu uma entrevista em 1994 em que afirma que a impresa de Curitiba contribuiu para o sentimento de que “não se pertence a lugar nenhum”. Isso ajudaria a explicar comportamentos retraídos como o de Dalton Trevisan, sujeito à mesma “atmosfera”. De lá pra cá, será que a imprensa local melhorou em algum aspecto no processo de identificação cultural de seus habitantes?

“Caderno 2 – E de onde viria esse sentimento?

Tezza – Não sei bem dizer de onde ele vem, sei que existe. Mas essa sensação talvez seja um reflexo do fato de nós não nos sentirmos habitantes de um cenário cultural definido – ao contrário do que ocorre, por exemplo, com os cariocas e com os gaúchos. Creio que a razão disso é não termos, em Curitiba, uma imprensa de qualidade. Na modernidade, se você não se integra através da mídia, se você não se converte em notícia e aparece, você não existe. Em Florianópolis, basta um escritor rabiscar meia dúzia de poemas para logo merecer uma página inteira em algum jornal. Aqui, a imprensa é feita com telegramas e com a publicação de colunas compradas dos jornais do eixo Rio-São Paulo. Sem imprensa, resta-nos o vazio. Só passei a existir como escritor depois que a revista Veja publicou duas páginas sobre Trapo. Antes disso, eu escrevia, mas eu não existia.”

http://pt.livra.com

Quando eu estava começando a criar coragem de mostrar o que escrevo, alguém me perguntou se eu já havia lido Kundera. Eu nunca havia ouvido falar nele. Mas fiquei curioso pra saber qual era a relação entre esse senhor de nome esquisito e aquilo que eu escrevia. Fui então atrás daquele que me pareceu ser o seu livro mais famoso, “A Insustentável Leveza do Ser”. Não lembro dos comentários que li sobre o livro, mas creio que devem ter me agradado, embora provavelmente eu tivesse algum receio.
 
Sei apenas que me simpatizei com o autor por ver que ele citava a Boêmia, terra de muitos dos meus antepassados. Confesso que não lembro muita coisa da história, mas sei que realmente gostei. Tanto que, pretensiosamente, cito Kundera em algumas das minhas crônicas feitas logo após ler esse livro. Há inclusive uma em que falo não ser recomendável para as mulheres de família. E de fato não é. Por essas e outras que o livro é tão bom.
 
Mas não quero falar da insustentável leveza do ser, que inclusive já tentei refutar, falando que às 14h de um domingo ela dura mais. Quero falar do livro em que gastei apenas cinco reais. “O Livro do Riso e do Esquecimento”. Depois de alguma resistência para começar a lê-lo (as páginas pareciam pesadas demais), criei coragem e não me arrependi.
 
Me atrai muito a não linearidade das histórias. A exemplo do que disse Federico Fellini, a história tem que ter começo, meio e fim, mas não necessariamente nessa ordem. Assim é que as sete partes do livro são divididas em pequenos capítulos, que não duram mais que duas páginas. E que também não são necessariamente uma seqüência natural da história. Por vezes há ali uma ruptura. Seja para continuar a contar de outro ponto, ou para Kundera ter um dos seus maravilhosos insights.
 
A exemplo dos outros livros, esse não é muito recomendável para quem prefere uma leitura sem sobressaltos. Já na primeira parte, cita-se alguém chamado Masturbov, por exemplo. Na segunda, descreve-se um ménage à trois. Na terceira, o próprio Kundera fala de certos desejos frenéticos que teve, e que enrubesceriam qualquer menina do interior. Na quarta, os personagens fazem amáveis considerações sobre orgasmos. Na quinta, há um caso de traição. Mas o que há de mais deplorável nessa parte é uma reunião de escritores. Não vou falar nada da sexta parte. Quem quiser que confira pessoalmente, não quero me comprometer. Na parte final, o personagem discute vida erótica.
 
Mas seria muito simplório resumir esse livro apenas a esses momentos libidinosos. E seria ainda mais infantil se eu dissesse que esses momentos são descritos de forma vulgar. Todas as páginas, embora dotadas de uma crueza que à primeira vista pode assustar, são recheadas de vida e sentimento, como poucos. Não esqueçamos que é um livro que se propõe a falar do riso e do esquecimento, e não de aventuras sensuais. Sinto uma ternura muito grande pulsando por ali.
 
Falar de um livro do Kundera, mesmo despretensiosamente como estou fazendo, torna essencial falar de suas metáforas. Deus, o que é aquilo? As metáforas são criativas, bem explicadas, e se repetem no decorrer da história. Ou seja, é como se o significado delas ficasse martelando o tempo todo, de modo a ajudar na compreensão do que está sendo dito na história. Assim é que ele cita, por exemplo, a dança da roda, para falar de uma espécie de exaltação, uma rara satisfação em estar alegre com pessoas alegres, que compartilham das mesmas coisas e das mesmas idéias. E também tem a metáfora da página 100.
 
Pelo menos no meu livro é a página 100. E na verdade não é ali que ela aparece pela primeira vez. Mas ali que ela faz sentido, e um sentido arrasador. Simplesmente nos compara a avestruzes. O avestruz não emite som. Se estivermos no zoológico, eles vão vir correndo até nós. Vão abrir e fechar a boca, como se tivessem algo pra falar. Mas não falam nada! Pelo menos não que a gente escute. E isso nos angustia. Mas na verdade, o que os avestruzes querem é o que todos queremos. Falar de si. Dizer “como comeram, como dormiram, como correram até a cerca e o que viram atrás dela”. Nós estamos do outro lado da cerca, e não temos o menor interesse em ouvir um avestruz falando de si.
 
Eu poderia escrever só sobre essa metáfora. Mas quero falar ainda da leveza da leitura. Eis aí o que temos de mais irônico. O livro se lê rapidamente, seja pelo formato ou pelo estilo de escrever. E quisera eu mencionar aqui o nome do tradutor. Porque ele me fez acreditar que Kundera na verdade não tinha nada a ver com Praga, que ele deve ter nascido por aqui mesmo. Mas quem diria! No livro do Riso e do Esquecimento, esqueceram de mencionar o tradutor. Seria engraçado se não fosse triste.
 
As histórias também deixam, com o perdão do clichê, um gosto de quero mais. À exceção de Tamina, a personagem que é para ser a principal, e que aparece em duas partes do livro, os demais não voltam. A história acaba e eu quero continuar lendo sobre eles, não quero deixá-los abandonados. Ou esquecidos. Acho que escrever uma boa história tem muito a ver com isso. Se eu não quero que ela termine, tenho uma boa história.
 
Voltando a falar da não-linearidade, é digna de méritos a capacidade de Kundera em dialogar com as próprias histórias, utilizando os personagens para fazer reminiscências de coisas que aconteceram consigo mesmo. E novamente, com uma sinceridade estupenda. Além disso, há uma visão histórica, a partir da invasão de Praga por parte dos russos. Kundera foi um dos perseguidos. É impressionante a capacidade de unidade que percebo no livro. Quando disse esse título em voz alta, alguém estranhou que se pudesse falar do riso e do esquecimento numa mesma publicação. Pois é absurdamente possível.
 
Assim como é possível juntar muitos capítulos, em várias histórias, incluindo a própria história do autor, e fazer com que tudo contribua para o resultado final e com o propósito do livro. Nada vou falar sobre o riso e sobre o esquecimento, porque na verdade, me dei conta de que ainda tenho que comer muito feijão antes de fazer considerações sobre alguma coisa.

Da onde eu estava sentado, fui um dos primeiros a ver quando ele parou na porta. Mesmo sem ter visto muitas fotos, reconheci-o imediatamente. Nada contei a quem estava do meu lado, esperando a comoção que aconteceria assim que os outros também se dessem conta da sua presença. O que não tardou a acontecer, e logo os aplausos e os flashes tomaram conta do auditório em que todos estavam para vê-lo. Aquele velhinho está prestes a completar 80 anos, totalmente lúcido, e ainda nos fala que tem um irmão mais velho. Sentou-se na sua cadeira, e esperou as palavras de acolhimento que iriam lhe dirigir. Aquele senhor, meus senhores, vai falar do Brasil! Chamado de arcaico, vai ousar defender o lugar e as coisas de onde mora, e mesmo sem querer, vai colocar o dedo na ferida de muita gente.

Deu uma tossida. Abriu uma bolsa e começou a tirar livros e papéis de dentro. “Vocês fiquem tranqüilos que eu não vou ler tudo isso”. Já se notou o sotaque nordestino. Sua voz era rouca, mas todo mundo entendia. Foi a primeira gargalhada da noite. Disse que se preparou para falar de um assunto, mas depois do que havia lido numa revista naquela tarde, resolveu mudar um pouco. A revista tinha uma reportagem que falava sobre uma tese de doutorado defendendo que Aleijadinho não existiu: foi uma criação do Estado Novo. Fez parte da tentativa de Getúlio Vargas de contruir uma identidade nacional. É provável que até mesmo o Tiradentes seja uma criação getulista. O simpático velhinho fica indignado com isso. “Se eu tô na banca e me aparecem com essa tese, eu dou zero. Tá louco!”, falava. Mas não em tom revoltado: falava como quem conta uma piada. O bom dessa tese absurda foi que naquela noite nos rendeu uma defesa do nosso país, junto com boas e divertidas histórias.

É sempre bom alguém nos lembrar que a Suécia não é tudo isso que pintam. Lá eles não riem de sí próprios, como aliás nenhum outro país faz. É um povo triste que tem uma das maiores taxas de suicídios (suecídios?). Enquanto que aqui, adoramos dar risada. O velhinho diz que não vê diferença entre quem mora no sul (“do Rio de Janeiro pra baixo já é Sul”) e quem mora no norte ou nordeste: somos as mesmas pessoas, vivemos as mesmas coisas, apenas com algumas peculiaridades. Mas no Brasil temos uma unidade incrível. Em 1970 ele já previa uma unidade maior, a da América Latina. Falando apenas duas línguas, é mais fácil se unir do que na Europa. “O espanhol é o português falado errado”. Sorte a nossa que falamos “desespero”, e nossos hermanos são obrigados a falar “desesperación”. O velhinho tem a platéia na mão. Brasileiro gosta de rir, está provado.

Ele não quer que o Brasil vire um Estados Unidos de terceira categoria. “Nem de primeira”. Deixa a entender que é isso que parecemos querer. Fica no ar a pergunta de qual o grande escultor americano. Não há por lá também nenhum Villa-Lobos. Os bons nomes de lá são conhecidos por cinco ou seis. O país renega a cultura indígena, a grande riqueza americana. Quem faz sucesso é o Michael Jackson. Ele até desistiu de falar mal de Jackson ultimamente, por tudo que a mídia faz com ele. Está esperando algum novo nome aparecer pra poder direcionar todas as críticas. “Se vocês querem me ver perdido e sofrendo, me soltem num aeroporto em Nova Iorque”.

Esse homem falou de cabras, pois também é criador. Quem diria que nem elas escapam das nossas distinções estúpidas. Há cabras SRD (Sem Raça Defininida, que são as brasileiras) e POI (Puro de Origem Importada). E citava causos divertidíssimos, mas cujo sentido iam muito além do humor: tratava-se da auto-estima do brasileiro e a valorização das suas próprias coisas, da nossa alegria surpreendente, da capacidade de agregar quem vem de fora. “Outro dia eu achei a coisa mais linda uma japonesa dançando fandago”. Ê, Brasilzão!

Quase uma hora de gargalhadas e reflexões interessantíssimas depois, o velhinho fez uma pausa. “Essa foi só a introdução”. Bendita tese absurda. Então, passou a se dedicar ao tema que pensara: as novelas picarescas. Um gênero de prosa característico da literatura espanhola. E nos brinda com a leitura de um trecho de “Lazarillo de Tormes”, uma novela anônima no século XVI, e precursora do estilo. Faz questão de mostrar o caráter universal da trama, que poderia muito bem se passar no nordeste de hoje, com todas as dificuldades sociais que o personagem tem que passar. Certa vez um crítico falou que “O Auto da Compadecida” era cópia de um autor francês, que ele nunca havia lido. Depois veio um segundo crítico e falou que as duas eram cópias de Cervantes. E ainda veio um terceiro que falou que num dos capítulos do D. Quixote, Cervantes se inspirou numa velha história do norte da África, que foi trazida para a Península Ibérica no século V. São histórias universais!

Ouvimos e rimos em ainda mais duas curtas histórias. Ficamos então sabendo que sempre há um pouco de crueldade no cômico. Aliviada pelo caráter fictício da obra. “Por isso que eu fiz essas palhaçadas aqui, pra que vocês pudessem rir mesmo com a parte trágica da história”. Voltando a falar de Cervantes, lembra que Dostoiévski (todo nordestino devia falar Dostoiévski) falou que era necessário a todo mundo, na hora do juízo final, carregar no braço um exemplar de D. Quixote. Pra apresentar como argumento de defesa.

E ali na minha frente estava um D. Quixote do Brasil. Em cima de seu cavalo, não hesita em partir na direção dos moinhos de vento do imperialismo, não dando importância alguma ao que os Sancho Panças alegam, falando que os tempos são modernos e que os conceitos são outros. “Dizem que sou arcaico”, repete. Esse D. Quixote tupiniquim fala em cultura brasileira, quando todo mundo julga conveniente aderir à cultura estrangeira, em tempos de globalização. Possui cabras que representam o povo indígena, o povo negro, o povo português e os povos que vieram depois. Avante, pois! Avancemos então contra os gigantes que os teimosos insistem em dizer que são moinhos de vento! Vistamos as armaduras de nossos ideais e viajemos pelo mundo desfazendo as injustiças e lutando pelos valores que julgamos dignos! Avante!

* Sobre uma palestra de Ariano Suassuna.

Cruel Como o Caso Isabela…

 Só que não ganhou nem um décimo do destaque pelos jornalistas… Por quê? Os envolvidos eram de condições sociais mais baixas, moravam fora do eixo-Rio São Paulo e o crime não teve a mesma dose de “mistério”?

Mulher condenada pela morte dos dois filhos

Tribunal do Júri de Passo Fundo condenou hoje (13/5) a 18 anos e 4 meses de reclusão a dona-de-casa Iara Morais de Toledo, 26 anos, pela morte de seus filhos Gabriel Toledo Fraga, de 6 meses, e Ariane Toledo Severo, de 4 anos de idade. Iara continuará recolhida no Presídio Regional de Passo Fundo.

O crime ocorreu em 22/5/2006, no interior da casa da família, no Bairro Valinho, onde as crianças foram mortas a facadas enquanto dormiam.

O julgamento teve início às 9h e estendeu-se até as 17h10min, sendo presidido pela Juíza Alessandra Couto de Oliveira.

(Maria Helena Gozzer Benjamin)

Link:

http://www.tj.rs.gov.br/site_php/noticias/mostranoticia.php?assunto=1&categoria=1&item=64712

 

Pouco há de novo a se falar, jornalisticamente, sobre a entrevista de Ana Carolina de Oliveira, mãe da Isabella. Que houve grande e excessiva busca pela audiência, e grande dramatização, não resta dúvidas – e naturalmente, a mãe não tem culpa alguma disso. Mas destaco uma frase que certamente passou batida na entrevista.

Perguntou a Patrícia Poeta o motivo da mãe guardar silêncio por tanto tempo. E ela respondeu que foi uma “maneira de obter entendimento” sobre o caso, porque ela não queria “falar sem saber”, e que somente agora se sente “preparada para falar”.

Mas os jornalistas-urubus queriam que ela falasse de qualquer jeito, não é? Ninguém perguntou a ela se estava em condições de entender o que aconteceu e então falar. Todos os jornalistas estavam ávidos por qualquer declaração dela. E nem importava o que ela falasse – lógico, se fosse uma frase impactante contra o pai e a madrasta, o jornalismo agradeceria. E por isso, quando ela fica em silêncio, todos achamos estranho, porque o normal seria aparecer diante das câmeras, não importando as condições,e falando qualquer coisa, mesmo sem se ter noção da totalidade dos fatos.

Precisamos de mais pessoas que, assim com a mãe de Isabella, evitem a imprensa em situações semelhantes. Isso diminuiria o shownalismo que cobertas como essa se transformam.

Embasado em Nelson Traquina (“Teorias do Jornalismo” – Volume II, 2005), tento, humildemente, descobrir características do Caso Isabella que possam ter influenciado para ele ter se tornado notícia e, mais do que isso, o motivo de continuar sendo notícia mesmo depois de tanto tempo do fato ocorrido e consumado.
Traquina elenca uma série de valores-notícia: são aqueles características que tornam um fato mais propenso a virar notícia. Quando maior for o número desses valores, maior o grau de noticiabilidade daquele determinado acontecimento. O autor divide os valores-notícia entre critérios de seleção e de construção da notícia.
Os valores de seleção se referem, justamente, às qualidades do fato. E qual o primeiro valor-notícia na teoria de Traquina? A morte. Vemos aí que o primeiro desses critérios já foi totalmente preenchido no caso Isabella. Afinal, a menina Isabella morreu, e muitas pessoas viram notícias quando morrem. Isso tem relação com aquela velha (e legítima) teoria das bad news – pois as notícias ruins sempre são ótimas para o jornalismo.
O segundo valor-notícia, refere-se à notoriedade dos envolvidos. Pessoas famosas e conhecidas são mais propensas a virar notícia. Não era, naturalmente, o caso de Alexandre Nardoni, nem da madrasta, nem da mãe, e muito menos da Isabella.
O valor seguinte é a proximidade, especialmente geográfica, mas também cultural. Ora, é visível que o caso extrapolou em muito a região em que aconteceu, de modo que podemos desconsiderar a proximidade geográfica como fator relevante para o caso ter se tornado notícia. Em termos culturais, a vida do casal, a princípio, não diferia muito da vida do brasileiro médio – o que pode ser um fator a mais a se considerar.
O próximo valor-notícia é muito interessante: a relevância do fato. Trata-se do impacto que ele irá causar na vida das pessoas. Ora, a morte de Isabella Nardoni não causará impacto senão na vida das pessoas envolvidas diretamente e na vida daquelas que mantinham algum tipo de relação com o casal e com a mãe. De modo que, a níveis de interesse público, o caso não contém nenhum elemento.
Também há o valor-notícia novidade. O Caso Isabella virou novidade no dia seguinte ao acontecido. Era um fato do qual ninguém tinha conhecimento, dotado de uma grande gama de acontecimentos totalmente novos e que não haviam sido noticiados. E as notícias seguintes, depois que a população já havia tomado conhecimento do caso, certamente procuravam buscar alguma coisa de novo, uma informação que ainda não havia sido noticiada. Mesmo depois de tanto tempo, essa continua sendo uma das motivações do jornalista para noticiar o Caso Isabella, já que, por menor que seja, sempre há uma informação adicional – que tanto pode ser relevante ou não, mas que, nesse valor-notícia, só interessa pelo caráter de ineditismo.

O fator tempo, por sua vez, engloba várias maneiras de ser. Uma delas é justamente a atualidade – e o caso Isabella é um caso atual. Outra, refere-se a “efemérides” – aqueles fatos que fazem aniversário. Esse valor-notícia fez sentido quando seria o aniversário de Isabella. Valeu-se desse acontecimento temporal para justificar uma série de pautas novas sobre o caso. Com Anna Carolina Jatobá presa, chamou-se a atenção para o fato dela passar lá o Dia das Mães – novo acontecimento temporal. E a terceira forma do valor-notícia tempo é aquela que maior representatividade tem no Caso Isabella. Ela diz respeito à uma exposição maior de determinado acontecimento no noticário, por conta do impacto que causou na sociedade. Ora, o Caso Isabella certamente causou algum impacto na sociedade. Pessoas ficaram chocadas com o acontecimento – ainda mais depois dos resultados apresentados pela perícia. Todos os meios de comunicação que noticiam o caso fazem questão de afirmar que é grande o “clamor popular” e a “indignação da sociedade” em cima do caso. Isso, segundo essa visão, justificaria que notícias relacionadas ao tema continuassem sendo veiculadas, mesmo tanto tempo depois.

A notabilidade diz respeito aos fatos palpáveis e tangíveis. Nesse caso, o fato era que uma menina morreu depois de cair do sexto andar do Edifício London, do apartamento do pai e da madrasta, que se transformaram em suspeitos, alegando um terceiro elemento no local. Não se tratava, portanto, de um fato abstrato e difícil de definir, como por exemplo, as condições em que Isabella vivia, ou o sentimento do pai quando chegou em casa naquela noite.  Essas coisas não eram palpáveis naquele momento, e só passaram a ser nos desdobramentos do caso, especialmente depois que a perícia entrou em cena. Dessa forma, quando o caso foi noticiado pela primeira vez, foram as características mais visíveis do caso que contribuíram para que se tornasse notícia. Há alguns critérios de notabilidade, entre os quais está a “inversão”, o contrário do que é normal. Naturalmente, e felizmente, não é normal que crianças de cinco anos caiam do sexto andar do prédio do pai e da madrasta. Outros critérios, como a quantidade de pessoas envolvidas, a falha, o insólito e excesso/excassez não parecem serem aplicadas no Caso Isabella.

Traquina chama de valor-notícia o inesperado, referindo-se às notícias que chegam de repente e que transformam totalmente a redação do jornal, fazendo com que os jornalistas tenham que se voltar exclusivamente para aquele acontecimento. Assim foi com os atentados de 11 de Setembro, como exemplifica o autor. O Caso Isabella, no entanto, não teve tanta repercussão na redação – pelo menos não tão logo o caso aconteceu.  Por pior que tenha sido, provavelmente não houve jornais a nível nacional que suspendessem suas edições e lançassem em banca uma edição extra com os acontecimentos do Caso Isabella – que aconteceram praticamente na virada de um dia pro outro (e pior, de um sábado pra domingo!). Também não houve Plantão da Rede Globo tão logo a menina tenha morrido. O “inesperado” refere-se a um mega-acontecimento que possui uma imensa quantidade de valores-notícia. Por maior que tenha sido o destaque dado ao Caso Isabella nas televisões na noite do domingo e nos veículos impressos de segunda-feira, não corresponde, em relação a “trasnformação da redação”, a fatos como a morte de Ayrton Senna, por exemplo.

O valor-notícia conflito ou controvérsia é um dos que mais se aplica ao caso em questão. Isso porque trata da violência, física ou simbólica. No Caso Isabella foi, escandalosamente visível, a violência física. Traquina afirma que a violência pode representar uma ruptura na ordem social. O que foi feito com a menina Isabella foge daquilo que temos como padrões de ordem e de comportamento na nossa sociedade. A violência representa uma ruptura entre aqueles que pertencem legitimamente à nossa sociedade e aqueles que estão de fora dela. Assim, as acusações contra Nardoni e sua esposa fazem com que, pela anormalidade dos fatos, eles não compartilhem dos mesmos valores que nós e, assim sendo, não pertençam ao nosso convívio – já que as pessoas, naturalmente, não esperam que se faça o que foi feito com Isabella. E isso contribui para que o fato vire notícia.

A infração está intimamente ligada à violência. Esse valor-notícia refere-se a transgressão das regras. Quem asfixiou Isabella e quem a jogou pela janela, notadamente estava transgredimento regras aceitas pelas sociedade, em que atos dessa natureza são inadmissíveis. A cobertura de um crime, em geral, pode ser bastante breve e rotineira. Não foi o que aconteceu com o Caso Isabella. Para que uma história envolvendo crime ganhe maior atenção e espaço no jornalismo, basta que seja um crime mais violento (a perícia está aí para mostrar de que forma se deu a morte de Isabella), com um maior número de vítimas, o que não foi o caso, e a soma de outros valores-notícia. Atuando em conjunto, esses fatores tendem a fazer com que um crime consiga transpor a cobertura rotineira que se faz nessas situações, se tornar comum no notiário e receber abordagens mais aprofundadas.

São esses os critérios substantivos dos valores-notícia de seleção, aplicados no Caso Isabella conforme as teorias de Traquina. Os critérios contextuais, por sua vez, dizem respeito aos procedimentos de produção da notícia.

Entre eles, está a disponibilidade e a facilidade em ter acesso à cobertura de determinado acontecimento. Pensa-se sempre no que será preciso para noticiar o caso, e se valerá a pena dispor dessas necessidades, conforme os outros valores-notícia atribuídos ao acontecimento. No Caso Isabella, as televisões parecem ter grande facilidade em cobrir o caso – e, não raro, costumam se vangloriar da situação, de modo a fazer o público acreditar que eles estão fazendo tudo o que é possível para informá-lo. É por isso que temos tantas “informações exclusivas” de equipes que acompanharam “o dia inteiro” tudo que aconteceu no Caso Isabella.

O equilíbrio é um valor-notícia interessante. E creio que é por pecar nisso que grande parte da sociedade está revoltada com os meios de comunicação que cobrem o caso Isabella. Traquina explica que “a noticiabilidade de um acontecimento pode estar relacionada com a quantidade de notícias sobre este acontecimento ou assunto que já existe ou que existiu há relativamente pouco tempo no produto informativo de uma empresa jornalística” (p. 89). Assim, toda vez que surge um fato novo no Caso Isabella, ele é noticiado. Mas, de alguma maneira, mesmo quando não há muito o que falar, ainda assim se fala sobre o caso. De modo que acaba se criando um desiquilíbrio nas temáticas dos jornais – principalmente de televisão. Há o privilégio, muitas vezes assumido, em se falar sobre o caso, esquecendo de outros assuntos que talvez também fossem passíveis de tratamento jornalístico. O valor-notícia equilíbrio diz respeito, justamente, a preocupações desse tipo.

A visualidade trata das imagens visuais agregadas a determinado acontecimento, e a qualidade das mesmas. No caso Isabella, se vê de forma muito clara a busca pela imagem perfeita. Tanto na tentativa de se colocar um helicóptero sobrevoando o prédio no momento da reconstituição do crime, quanto no momento da prisão do casal, e mesmo nos lugares em que mãe de Isabella vai, o que se vê é a busca pelas melhores imagens, pois sabe que, assim, o material será mais facilmente noticiado. Especialmente em televisão, a imagem é que dita a qualidade do conteúdo.

A concorrência é sempre levada em conta no momento da produção, e não seria diferente ao noticiar o Caso Isabella. Ora, se uma das grandes emissoras noticia o caso, com destaque, como é que a outra não irá noticiar? Ao mesmo tempo, existe a busca pelo furo, e por tudo que é exclusivo. Quando se consegue algo assim, não se hesita – ao menos na televisão, durante o caso Isabella – em mostrar que foi aquela emissora que conseguiu, com exclusividade. Dessa maneira, é como se o veículo tentasse se firmar e se legitimar perante a sociedade e, de certa forma, passar a perna nos concorrentes.

Outro valor-notícia desse grupo é o dia noticioso. Há dias mais férteis que outros na produção de notícias. Talvez, quando não há outro assunto, possa se privilegiar a divulgação de novas matériaa sobre o Caso Isabella – mesmo quando não se tenha muito a dizer.

São esses os valores-notícia de seleção, em seus dois grupos. Os outros valores dizem respeito à construção da notícia, e são os seguintes:

Simplificação. Quanto menos ambígüo e complexo for um fato, maior a possibilidade de se transformar em notícia. Traquina ainda fala que “uma notícia facilmente compreensível é preferível a uma outra cheia de ambigüidade (p. 91). O Caso Isabella, no entanto, desde o início esteve sustentado em outra esfera, que é a do mistério – portanto, com discursos ambígüos, deixando dúvidas e mais dúvidas na cabeça de todos que os acompanhavam. Pode ter havido então, uma tentativa de simplificar o caso, apressando o desenrolar dos acontecimentos, e condenando sumariamente o pai da menina – porque assim, ficaria mais fácil para a notícia ser assimilada. Ao tentar reduzir a polissemia de um caso tão misterioso, o jornalista corre o risco de pender demais para um lado que pode não ser necessariamente o certo.

Amplificação. Quanto mais amplificado o acontecimento, mais fácil da notícia ser notada. Eis a lógica: quando se fala “o crime que revoltou o Brasil”, “o crime que chocou o país”, e coisas do gênero, está se amplificando a dimensão do acontecimento. Isso pode tanto ser verdadeiro como uma tentativa de legitimar o destaque e os enfoques dados ao tema.

A relevância, outro valor apontado, diz respeito à capacidade do jornalista em tornar o acontecimento relevante para as pessoas, mostrando que ele tem um sentido na vida delas. No Caso Isabella, parece visível que a maioria dos jornalistas não consegue fazer isso, e o número de pessoas que se rebela contra as notícias sobre o caso só está aumentando. Afinal, as pessoas não enxergam relevância na vida delas para tantas informações, o dia inteiro, em todos os veículos.

Já a personalização diz respeito à capacidade de personalizar uma acontecimento, de modo a deixar mais fácil para o público identificar o “positivo” e o “negativo” do caso. É o enfoque maior na pessoa envolvia no acontecimento. Assim, se criam ligeiras biografias de toda a família Nardoni, e de toda a família Jatobá, de modo a tornar o caso mais palpável para o público que, munido das informações que surgiram dessa personalização, poderá tomar partido mais facimente. Como Traquina lembra, muitos são os estudos que falam sobre o interesse das pessoas em saber sobre a vida dos outros.

A dramatização é outro valor-notícia facilmente identificado na televisão. É o reforço do lado emocional. Choros, lágrimas, declarações emocionadas… Tudo que se viu nas notícias sobre o Caso Isabella. Buscou-se mostrar o sofrimento da mãe, a crueldade contra a filha, a frieza do pai e da madrasta, e muitos outros aspectos que o sensacionalismo trata de incorporar em casos assim.

Há ainda a questão da consonância. Ora, o Caso Isabella já é de conhecimento público. Já virou notícia há muito tempo. Assim, tudo o que tiver relacionado a esse caso, tem maior chance de se tornar notícia novamente – porque, afinal, já há um referencial, e a nova notícia já vai estar inserida numa “narrativa” estabelecida e de conhecimento de todos. Isso corresponderia às expectativas do público, que tem preferências pela notícia que pode ser interpretada dentro de um contexto conhecido.

São esses os valores-notícia apontados por Traquina e que tentei verificar a correspondência com o Caso Isabella. Há ainda aqueles valores intrínsecos às organizações jornalíticas, cujas rotinas estão sempre influenciando os valores-notícia.

Percebe-se que há uma grande quantidade de valores envolvidos, tanto na seleção do Caso Isabella para virar notícia como no tratamento dado ao caso. Na seleção de critérios substantivos, envolve morte, proximidade cultural, a novidade, o prolongamento de notícias impactantes, a anormalidade, o conflito e a infração – sem levar em conta a relevância do tema, e de vez em quando com alguma coisa de efeméride. Nos critérios contextuais, envolve a disponibilidade, a visualidade, a concorrência e o dia noticioso – e peca no eqüilíbrio, como boa parte da sociedade já percebeu. Na construção da notícia, envolve a sua tentativa de simplificação, a sua amplificação para uma dimensão nacional, a personalização dos envolvidos, a constante dramatização (talvez o valor-notícia mais visível) e a consonância, que legitima a repetição de notícias sobre o tema – novamente, não é bem sucedida a busca em tornar o fato “relevante” para o público.

O Caso Isabella merece análises bem mais aprofundadas do que essa que fiz. No entanto, é um primeiro olhar que lanço sobre o caso, fruto da minha constante insatisfação com o modo como o caso tem sido tratado na mídia, especialmente a televisiva. Reflexões sérias dos póprios profissionais sobre esse caso talvez impediriam o aumento da falta de credibilidade dos meios de comunicação perante a sociedade. 

 

 

Ligar a televisão na Record, durante qualquer um dos seus programas “jornalísticos”, é certeza de se revoltar. A emissora é, de longe, aquela que tem feito a cobertura mais “shownalista” sobre o caso Isabella, sempre com a grande desculpa do “clamor popular” – coisa que, se eles não criam, com certeza aumentam bastante.

Entre as informações, totalmente relevantes (isso foi irônico), agora que a dupla está na cadeia, estão aquelas que dizem que “os outros presos não gostaram da presença deles”. Mesmo quando não existir praticamente nada de novo no caso, os jornalistas-urubus pegarão um pequeno fato e o transformarão na razão de ser do tele-jornal. Não sei sobre a imprensa escrita, mas é deplorável a cobertura na televisão.

Mostrando novamente que a ética e o bom caráter são práticas inerentes ao jornalismo da Record (isso também foi irônico), hoje, naquele fatídico Fala Brasil, mostraram uma leitura labial do Alexandre Nardoni! Incrível! A que ponto chegou o jornalismo?! O Fantástico fez escola com aquela aberração feita ano passado. Leitura labial! E Alexandre disse: “Acho que dá pra escapar dessa…”. Assim disseram os entendidos em leitura labial, numa imagem exclusiva captada pelas lentes da Record, pela equipe de jornalismo da Record, exclusivo, exclusivo!

Naquele horrendo Domingo Espetacular, há duas semanas, houve uma conversa por telefone gravada com a tal da Jatobá. E, olha só, quem diria, ela não sabia que estava sendo gravada. É interessante que a suposta crueldade da dupla acaba legitimando a falta-de-caratismo de alguns jornalistas, que não hesitam em passar por cima da ética da profissão quando o assunto é conseguir furos e ganhar audiência.

E tudo muito bem travestido de “interesse público”. Como se o público não estivesse de saco cheio.

Novamente, o jornalismo dá vexame a nível nacional na cobertura da prisão do pai e da madrasta da Isabella. Nada mais patético do que a cena em que um amontoado de jornalistas se acotovelam, se empurram e se socam simplesmente pra tirar uma foto ou pegar uma declaração (como se alguém, sob essas condições terroristas, pudesse falar alguma coisa).

E também novamente, se tenta legitimar o destaque dado pelo fato do “clamor popular”. Os jornais mostram como aberração da natureza o fato de uma porção de desocupados acompanharem o deslocamento da dupla. Certamente, são pessoas com sórdidos interesses. Mas chamo a atenção para a porção de jornalistas desocupados que estavam fazendo exatamente a mesma coisa.

A manchete do Jornal Hoje de ontem falou alguma coisa do tipo “ver o papelão sob o qual a madrasta dormiu”. Muito interessante, não? A matéria falava ainda que ela leu a Bíblia antes de dormir, e que já havia feito o sinal da cruz. Ora, o jornalismo cai como um patinho na tentativa da madastra em parecer uma pessoa sensível e religiosa.

E tanto esforço, tanto destaque, tanto empurra-empurra, tantos flashes, apenas para fazer uma porção de matérias totalmente objetivas e factuais, que não irão variar quase nada de veículo para veículo, com lead, sub-lead, pirâmide invertida e tudo que tem direito. Sem um pingo de lirismo, sem um gota de literatura, e apenas com a emoção que visa a audiência.

Essa cobertura aumenta ainda mais o desprezo que a maioria das pessoas têm pelos meios de comunicação.

Argh!

 

O fantástico Fernando Sabino, remexendo em suas coisas velhas, achou algumas anotações sobre escritores. Nelas, fazia uma separação entre aqueles que tinham a sua simpatia e aqueles que não tinham. Sabino mesmo admitiu que, depois, muitos dos escritores antipáticos passarem a se tornar simpáticos para ele, e vice-versa. Eis a lista dele:

Antipatia: Goethe, Montaigne, Flaubert, Turgueniev, Gide, Valéri, Claudel, Mauriac, Papini, D’Anunzio, Sartre, Camus, Huxley, Joyce, Proust, Longfellow, Kafka, Alberti, Eliot, Rimbaud, Breton, Jarry, Faulkner, Shaw, Chesterton.

Simpatia: Rabelais, Cervantes, Molière, Donne, Blake, Lautréamont, Cocteau, Apollinaire, Saint-Exupery, Bernanos, Hemingway, Fitzgerald, Henry James, Eric Gill, Herbert Read, Ruskin, William Morris, Milosz, Fernando Pessoa, Lawrence, Pirandelo, Ezra Pound, Stendhal, Verlaine, Antonin Artaud, Mark Twain, Svevo, Dostoievski, Conrad, Tolstoi.

Naturalmente, estou longe de ter uma bagagem literária como essa – até porque, muitos dos citados são poetas, e de poesia eu nada entendo. Mas faço a minha lista também, com destaque a escritores nacionais. Os meus eleitos:

Antipatia: Fitzgerald, Sartre, Camus, Lygia Fagundes Telles, Saramago, Clarice Lispector (redundante colocar o Paulo Coelho aqui)

Simpatia: Machado de Assis, Rubem Braga, Fernando Sabino, Cervantes, Kundera, Hemingway, Paulo Mendes Campos, Shakespeare, Rubem Fonseca, Dickens, Erico Veríssimo, Luis Fernando Veríssimo, Stevenson, Moacyr Scliar, Kafka, Cristóvão Tezza, Flaubert, Ariano Suassuna, Proust, Dalton Trevisan, Orwell, Drummond, Exupery, Jorge Amado, Cony.

Fatalmente, alguém pode trocar de lugar com o passar do tempo – até porque, de alguns me bastou um único livro para ter um julgamento. Vejo que tenho bem mais escritores simpáticos do que antipáticos. Não sei o que isso quer dizer. Entre os antipáticos, à exceção de Sartre e Fitzgerald, os outros li até o final. Sou teimoso.

Crio ainda outra categoria;

Quero ler e não vejo a hora de colocar na lista dos simpáticos: Dostoievski, Tolstoi, Henry James, Stendhal, Balzac.

Minha única poesia

Sempre digo que sou um poeta frustado. Escrevo em prosa justamente por não saber escrever em versos. No entanto, até hoje consegui fazer uma única poesia. E sempre a reescrevo, porque isso me dá a ilusão de que entendo alguma coisa. Na verdade não é exatamente uma poesia, parece muito mais uma letra dos Engenheiros do Hawaii lá por 1992, quando ainda eram bons. Na verdade, é muita pretensão fazer uma poesia ser nem ler livros de poesia, mas de qualquer forma, coloco ela no mundo virtual.

Pode não parecer, mas cada verso tem um sentido. Acho que por isso que prefiro crônicas, em que pouca coisa precisa fazer sentido.

Progresso

automerchandisingcybersolidãosemiliberdadeneoescravidão
teleterrorismosubalimentaçãovideoguerrafriadisqueproteção
anticonstitucionalizaçãopréjudicialhábeascorpusarização
etnocentrismalizaçãosubculturalthebookisonthetablelização

megalomaniasuperpopulaçãohiperatividademultiseleção
biarticuladotridimensionaltetrassexualpentacampeão
transocidentalposglobalizaçãocoparticipaçãoneoliberal
macrocientificaçãobiolaboratorialautosustentabilização

ninguémtemumsegundoaperderninguémpodeparar
ninguémtemnadaprafazerninguémtemnadaprafalar
ninguémmaisvaipodernegarnuncaestivemostãoperto

nunca

estivemos

tão

longe

tepeçomeexplicaoqueéprogressodizoseupreço
quasetudoqueémodernotemumpoucodoinferno
quasetudoqueébacananãoduraoutrasemana
quasetudoqueélegalnãoduraoutrocarnaval

worldwidewebsensaçãopopindustrialmacroexposição
micromassacorporalmultivomitaçãometaescultural
excomunismaçãosetorialsociodemocratizaçãofilial
maxiocultaçãovisualprodesatençãoobservatorial

economiopia
desenvolvimentir
utopiada
consumidoidos
patriotários
suicidadãos (*)

NUNCAFOMOSTÃOGRANDESnunca pensamostãopequeno
Nuncafomostãointeligentesnuncafumotãoingnorante
Nuncacaminhaostãorápidooãçeridaotnatsomedrepacnun

Progresso?

É voltar ao que era antes!
Nem tudo que muda é pra melhor…

Progresso!

É começar tudo de novo!
Depois de olhar tudo ao redor…

Progresso…

É ver um sorriso além do olhar
É não ver o tempo passar, é rir até chorar!!!

(*) epigrama “Seu Metaléxico”, de José Paulo Paes.

Ricardo Chab concedeu entrevista coletiva sobre a acusação de crime de extorsão feita contra ele e seu advogado. Os dois conseguiram liberdade provisória no último sábado.

Um frase interessante na matéria do Jornale sobre essa entrevista: Segundo Chab, as fitas são fruto de montagem, pois a empresa apenas pretendia anunciar na Rádio Mais, de propriedade dele. Apesar de falar diversas vezes que foi vítima de armação, Chab não especificou quem seriam essas pessoas.

http://jornale.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=10126&Itemid=52

Chab também disse ter sido humilhado enquanto esteve na cadeia:

“Em uma semana de prisão, o apresentador declarou que passou por humilhações e privações na cadeia. Ele disse que ficou dois dias numa cela sem energia elétrica nem janelas e foi obrigado a comer com as mãos.”

 Matéria da Gazeta do Povo:

 http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=763052&tit=Ricardo-Chab-e-advogado-negam-crime-e-acreditam-em-armacao

Bem, inocente ou não, ele iria declarar isso de qualquer jeito.

A Gazeta do Povo, aqui de Curitiba, publicou nesse sábado um especial sobre o Jornalismo Literário. Vale a pena a leitura para aqueles cansados do jornalismo convencional e essencialmente factual, sem muitas possibilidades criativas. As possibilidades e espeficifidades do gênero são abordadas de maneira muito interessante nas matérias:

Eis o link para elas:

O FIM – Sobrevivência da imprensa pode estar nas mãos de reportagens interpretativas e bem elaboradas. É um novo começo?http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=762263&tit=

“JORNAIS SÃO PARA EMOCIONAR” – Jornalista que trabalhou na Folha de S. Paulo faz uma lista de motivos para as pessoas jamais deixarem de ler os jornais impressos http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=762239&tit=

O DOMÍNIO DO TEMPO – O que um gênero como o perfil, consolidado pela revista norte-americana The New Yorker, tem a ensinar para o jornalismo “apressado” que se pratica nos dias de hoje              http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=762402&tit=

TENTATIVA E ERRO – Brasileiros, piauí e Rolling Stone tentam substituir a revista Realidade,ainda considerada o expoente do jornalismo no país http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=762405&tit=

ESTANTE BÁSICA- Confira uma seleção de títulos indispensáveis (todos disponíveis no Brasil) para qualquer um interessado em jornalismo. http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=762409&tit=

Todos os presentes concordaram que “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde” não era um título muito comercial. Assim, acharam por bem chamar a famosa obra de Robert Louis Stevenson de “O Médico e O Monstro”. Decidido isso, as pessoas puderam enfim ler e tirar as suas conclusões. Como costuma acontecer, as metáforas não são entendidas totalmente, e nem por todos. Ao final da mais elaborada analogia, que por conseqüência será aquela em que o autor mais viajou, se ouvirá acusações de toda a parte. Perguntarão se continua bebendo. Citarão substâncias ilícitas. Tudo porque aquilo que estamos lendo foge da nossa rotineira lógica, da nossa busca pelo sentido natural das coisas – a busca pelo sentido é absurda. Enredos fantasiosos só servem para mero deleite, sendo totalmente rasos e desprovidos de reflexões maiores, quaisquer que sejam elas.

Leitores afoitos podem perder o fio da meada e não entender nada – ou pior, achar que entenderam. Normalmente é o meu caso, que já sou afoito por natureza. Por essas e outras, me dispus a ler a orelha do livro, o prefácio, as notas de rodapé, e finalmente os comentários de outras pessoas mais instruídas que também leram, para só então estar certo de que a obra não se trata de mero devaneio literário. Lógico que selecionei as opiniões. Não dei, por exemplo, a menor importância para comentários de gente tenebrosa, como aquele senhor que atende por Stephen King, o qual viu o livro como exemplo da mitologia do lobisomem. Bem, cada um vê de acordo com a sua realidade. Também vi gente classificando o livro como de terror e mistério. Sou chato o bastante pra discordar. Pra mim se trata de uma obra para ficar na prateleira das “Obras Que Colocam o Dedo na Ferida”, logo ao lado da “Isso Aqui Também Fala de Você”. Enfim, algo que tem muito mais a ver com psicologia, psicanálise e psicodelia.

 Hmm… Stevenson seria mais médico ou mais monstro?

Embora a história tenha caído no domínio público, talvez haja entre minhas três leitoras alguém que não saiba do enredo. Bom, para bem resumir, e me fazer entender, é sobre um  tal de Dr. Jekyll, que produz uma fórmula para liberar seu lado devasso. Médico estimado e reconhecido por todos, muito bondoso, também sentia desejos de se divertir (infelizmente o livro não diz que tipo de diversões). Mas depois, sempre vinha a culpa. Com a fórmula que fez, seu corpo sofria uma transmutação, e ele virava uma outra pessoa, que era a exterioração de seu lado mal. Podia se divertir à vontade, o nosso pobre médico. Sem culpa alguma, afinal ele era outra pessoa, e bastava tomar a fórmula para voltar a ser o pacato Dr. Jekyll. O Mr. Hyde (o lado mal da força) fazia coisas abomináveis, chegando inclusive a pisotear uma criança, e a matar um cidadão de respeito por motivos fúteis. Enfim, aos poucos o Dr. Jekyll foi perdendo o controle do Mr. Hyde.

Lendo, percebi que Stevenson omitiu uma parte importante da história. Não é falado que o Dr. Jekyll, enquanto transformado em Mr. Hyde, teve um filho. Não sei sob quais circunstâncias, e considerando as atitudes que tinha, creio que deve ter sido à força, o que aumenta ainda mais nossa repugnância pelo monstro. De qualquer forma, teve um filho. Falo isso com segurança, porque vejo descendentes do Mr. Hyde todo dia. Tenho inclusive medo de avançar demais na minha genealogia e descobrir que ele é meu parente. Para se encontrar com o maldoso Mr. Hyde, não é preciso viajar até Londres. Ele é um patrimônio da humanidade, não é de lugar nenhum, não é de Brasília, não é de Brasil, nenhuma pátria o pariu. Podemos encontrá-lo sem muita dificuldade.

E ao contrário do que podemos ler no livro, em geral, não há aquele aspecto tão repugnante em sua aparência, que a todos causava visível mal-estar. Os descendentes de Mr. Hyde foram, conforme passavam as gerações, aperfeiçoando suas técnicas de maquiagem e camuflagens. E conseguiram isso de tal maneira que agora, depois de tanto tempo, já não é mais possível distinguir quem é o médico e quem é o monstro. Ambos tem a mesma aparência agradável. Mesmo as atitudes agora são parecidas. Quem foi que disse que o Mr.  Hyde não pode dar uma de Dr. Jekyll? Quando o monstro aparece na televisão, ninguém diria que é ele. Fala tão bem, articula tão bem as palavras, parece tão decidido. E promete coisas maravilhosas. Mal vemos que num instante houve uma transmutação, bem diante dos nossos olhos. Mr. Hyde só vai ser descoberto daqui a alguns meses, talvez anos, envolvido em algum escândalo de corrupção. Até lá, vamos continuar achando que se trata do querido médico.

 Descendente de Mr. Hyde disfarça seu lado monstro
A verdade é que hoje estamos muito melhores em nossos disfarces. Tanto que nem precisamos se preocupar. No livro, o Dr. Jekyll se transforma em Mr. Hyde no meio da rua. Como Hyde é procurado da polícia, Jekyll se desespera. Ajeita a sua roupa o melhor que pode, e quer fugir dali o mais rápido. Hoje não precisamos mais dessas coisas. Aperfeiçoamos nosso estoque de mentiras de uma maneira brilhante, de modo que mesmo sendo Hyde, ainda mostraremos com todos os argumentos que na verdade se trata de um erro de interpretação, e somos ainda Jekyll. Teremos todas as testemunhas que quisermos, e faremos com que o caso termine em pizza. Contaremos, obviamente, com a colaboração da Justiça e da Gente Poderosa, que mantém intrínsecas relações com o monstro.
 Um dos objetos que, não raro, é de utilidade para o monstro

Tenho uma amiga que, por motivos diversos, virou prostituta. Ela também é descendente de Mr. Hyde. Mas ao contrário de seus demais primos, continua com o aspecto repugnante que era característico ao personagem do livro, seu ancestral. O Dr. Jekyll, na carta que escreveu explicando o seu segredo, afirmava que Hyde chocava porque só tinha o lado mau, e não o lado bom e o ruim, como as pessoas normais. Pois foram esses genes que a prostituta herdou, e todos temos repugnância a ela. Obviamente, só há o lado mal nela. Fenômeno assim acontece com todos os nossos julgamentos infelizes. Vemos no outro apenas Mr. Hyde. Nós, surpreendemente, mantemos a nossa aura de equilíbrio, austeridade e conformidade, de acordo com os costumes da nossa sociedade. Teimamos em achar ligação com Dr. Jekyll o tempo todo. “O inferno são os outros”, disse aquele tal de Sartre, cuja frase tive o prazer de descontextualizar agora.

Quando o médico perdeu o controle do monstro, começou a se transformar em Mr. Hyde nas horas em que menos se esperava. Sentia um formigamento, seu corpo se agitava, e em questão de segundos, lá estava o homem do aspecto desagradável e deformado tomando o lugar do bondoso e respeitado cidadão. Assim são os fregueses da minha amiga. Quando saem de casa, estão se sentindo normais. Pessoas de bem que freqüentam a alta sociedade, e que mantém um círculo de relações com pessoas das mais distintas. Gente bondosa e estimada por todos. Mas inexplicavelmente, quando se encontram com minha amiga, é que se percebe a transformação. Homens honrados fazem coisas que jamais se espera deles. Os relatos que ouço me impressionam. Desejos impensáveis para pessoas desse gabarito. Stevenson queimou a primeira versão do “Médico e o Monstro”. Certamente devia ter algo a ver com esses homens.

 Descendente de Mr. Hyde que só tem o lado monstro

Na história, houve caso em que Dr. Jekyll dormiu e quem acordou foi Mr. Hyde. Geralmente acontece o contrário. Explico-me. O desaconselhável Mr. Kundera fala em seus livros uma porção de coisas que ruborizariam as damas do interior, moças de família, mais afeitas aos bons costumes. Pois esse senhor falou, sem ninguém lhe perguntar, que se deitar e dormir não são a mesma coisa, e que não são necessariamente feitas com a mesma pessoa. Várias pessoas despertam o desejo de se deitar com elas, mas apenas uma de dormir junto. Isso diz esse senhor. Ou seja, quem se deita é o Mr. Hyde, que não faz distinção de cor, credo, classe social ou time de futebol. Apenas se deita. Passado o efeito da droga que o transformou, ele se dá conta do que faz. Dr. Jekyll retornou. O médico vê quem está ao seu lado e não reconhece mais nada, percebe que nada daquilo faz sentido. Não quer dormir com a pessoa que acabou de se deitar com Mr. Hyde. Vai levá-la para casa, e volta pra cama, a fim de dormir sozinho. Afinal de contas, o Dr. Jekyll é um homem romântico, que diferencia deitar-se de dormir junto, coisa que só fará quando encontrar alguém que mereça dividir sua intimidade dessa maneira. O que o Mr. Hyde fez já não importa, agora é passado, ele não está mais aqui. Quando dorme, coloca um fim em Mr. Hyde.
scifipedia.scifi.com
O médico fala algo importante no livro: “Posso me livrar de Mr.Hyde quando eu quiser”. O Dr. Jekyll realmente acredita nisso, e está certo. Mas pouco faz para que isso se concretize. Com o tempo, a presença do monstro vai se tornando rotineira. Vai abrindo concessões. Se torna mais conivente com seus desatinos. Afinal de contas, é uma parte dele – ainda que seja uma parte ruim. Quando resolve fazer um esforço, o monstro fica acalentado dentro de si por algum tempo. Mas pedindo uma nova chance, querendo sair e voltar a fazer tudo que gosta e sente prazer. Enfim. Dr. Jekyll não resiste mais. Vai correndo tomar a fórmula, e  Mr. Hyde está a solta novamente. Realizados todos os seus vis desejos, volta a tomar do mesmo líquido, e Dr. Jekyll retoma o comando. Sem culpa alguma, nem nada que possa comprometer a carreira e a honra desse médico. E o pior não é isso. O pior é que de tanto se acostumar com a presença de Mr. Hyde, o Dr. Jekyll vai morrendo. Toda a sua bondade aos poucos vai sendo diminuída. O plano maléfico de Mr. Hyde está dando certo, e lentamente ele tomará conta do médico. O tempo consegue fazer tudo. Dessa vez, terá que fazer um imenso esforço para voltar a forma original, para ser o compassivo Dr. Jekyll. Alguma semelhança com algo da sua vida?

Li alguém comentando que havia um pouco do médico e do monstro nos terroristas. Falavam também que havia muito deles num padre pedófilo. Não duvido que seja assim. Mas as pessoas realmente não conseguem assumir nada. Há um pouco do médico e do monstro em você tambem. Admita, não fique culpando os outros. O médico faz atividades filantrópicas. O monstro tem segundas intenções, está interessado nas vantagens que a publicidade de seus atos trará. O médico é casado. O monstro olha as pernas daquela morena que passa na rua. Dr. Jeyll parece ser uma boa pessoa. Mr. Hyde só pensa nos seus lucros. Dr. Jekyll pensa em salvar a África, o Haiti, o Iraque e o time do Coritiba. Mas Mr. Hyde não deixa, está mais preocupado em adquirir o novo celular, que faz de tudo, até mesmo telefonar, e em que alguns meses já estará obsoleto. Mr. Hyde vai ao shopping e volta cheio de sacolas. Quer o conforto. Todos os seus desejos humanitários morrem na primeira mordida de um Big Mac comido no Marx Donald’s. O médico fala em pena de morte porque tem pena das vítimas. O monstro faz média, sabe que a Constituição não permite. Nos habituamos com a presença de Hyde. Stevenson custa a crer, mas seu personagem está difundido onde menos se espera. Acabamos com ele quando quisermos. E não acabamos.

 Tio Sam apontando quem tem alguma coisa de monstro
Não somos, certamente, a completa exterioração do mal, como era a criatura idealizada no livro. Mas o hábito é um perigo. Se fazemos o que não queremos, e não conseguimos fazer o que devemos, nos identificaremos com o livro. E se não for assim, é porque queremos continuar sendo hipócritas. Embora não haja a total separação entre herói e vilão, mocinho e bandido (todos somos facilmente as duas coisas), precisamos urgentemente do Super Mario Bros. Não devemos hesitar na hora de pular na cabeça dos monstros, seja quais forem as formas que tiverem. Se isso não bastar, devemos procurar tacar bolas de fogo ou cascas de tartaruga, subir em cima de dinossauros e engolir as criaturas cruéis que fazem parte do nosso jogo, a fim de destruir, ou ao menos amenizar, os efeitos que causam em nós. Quanto mais fizermos isso, mais pontos vamos conseguir. E quando passarmos de fase, com esse saldo que conseguimos, se Deus quiser, vamos conseguir o bônus que tanto desejamos.
Depois de tão longo texto, o melhor que temos a fazer é descansar. Penso com meus botões se acompanho Jekyll até a livraria ou vou com Hyde a uma festinha. Me lembrando do que acabei de falar, escolho a companhia do médico. Hyde, teimoso, quer ir comigo. Chamarei o encanador bigodudo.

 Vontade de descansar pulando em cima da vontade de fazer farra

 

Vídeo com trechos do filme do “Médico e o Monstro”, que alguém mais pra médico disponibilizou:

Link no iu-túbe: http://br.youtube.com/watch?v=Mz2jbp2QeDk

Henrique Luiz Fendrich

O “jornalista” Ricardo Chab saiu de trás das grades e responderá em liberdade à acusação do crime de extorsão. Veja a notícia na Gazeta do Povo On Line:

“O juiz Antônio Carlos Choma, da 8.ª Vara Criminal de Curitiba, concedeu a liberdade provisória para o ex-deputado estadual e apresentador de tevê Ricardo Chab e para o advogado Antônio Neiva de Macedo Filho - presos há uma semana em flagrante pelo crime de extorsão. Chab e o advogado devem deixar a carceragem do Centro de Triagem II, em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, na tarde desta sexta-feira (2).

Pouco antes de 10h, Chab e Macedo Filho deixaram o CT II e foram até a 8º Vara, no Centro de Curitiba para assinar o termo de liberdade. Cerca de uma hora depois retornaram a carceragem para aguardar o cumprimento da ordem judicial. A decisão do magistrado foi encaminhada para a Vara de Execuções Penais (VEP) de Curitiba – que vai cumprir a ordem. O apresentador e o advogado deixarão o CT II somente depois da chegada do oficial de Justiça – que vai cumprir a ordem de liberdade provisória.

Chab e Macedo Filho responderão em liberdade ao processo criminal por crime de extorsão. Na última quarta-feira (30), o promotor de Justiça Cláudio Franco Félix, da Vara de Inquéritos Policiais (VIP), apresentou denúncia contra apresentador e o advogado. A denúncia do Ministério Público do Paraná relata que Chab e Macedo Filho praticaram a extorsão por duas vezes – tendo como alvo, em ambas as vezes, o proprietário da empresa de segurança Centronic, Nilso Rodrigues de Godoes. Da primeira vez, em outubro de 2007, o apresentador e o advogado teriam exigido R$ 100 mil – sendo pago R$ 80 mil em duas parcelas.

E a mais recentemente, que resultou na prisão em flagrante dos dois, Chab e Macedo Filho exigiram do dono da empresa R$ 150 mil, valor que caiu para R$ 70 mil após negociação. Quando o empresário foi pagar a primeira parcela, de R$ 35 mil, Macedo Filho foi preso em flagrante, com o montante na pasta.

O presidente da Câmara de Colombo, o vereador petista Onéias Ribeiro de Souza, também foi denunciado pelo promotor. A denúncia relata que o parlamentar participou somente da segunda extorsão. Apesar do envolvimento, Onéias não teve a prisão decretada pela Justiça.

Extorsão

Chab e Macedo foram presos na sexta-feira, na sede da Rádio Mais, em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. Os dois são acusados de extorquir a empresa de segurança Centronic. De acordo com a polícia, há cerca de dez dias eles estariam coagindo a empresa a pagar R$ 70 mil. Do contrário, informações sobre um suposto envolvimento de um vigia da Centronic no desaparecimento de um morador da região metropolitana seriam apresentadas por Chab nos programas que comandava na RIC TV, afiliada da Rede Record, e na Rádio Mais.”

Link: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=762178&tit=Juiz-concede-liberdade-provisoria-para-Ricardo-Chab-e-advogado

E reveja o vídeo da prisão de Ricardo Chab na semana passada, em matéria da RPC:

 

Meus Quadrinhos

Acabei de contar, e tenho comigo 900 gibis. Não estou arredondando, é o número exato. Esse número já chegou a ser mais de mil, mas aos poucos fui vendendo e trocando alguns “mais atuais”. Foi com os gibis que aprendi a ler, e com eles que desenvolvi gosto pela leitura. Apesar disso, sempre pairam alguns preconceitos, especialmente com relação aos personagens da Disney, seres “assexuados”, e que representam “ideais de vida para os norte-americanos,” e não sei o que mais. Cresci lendo esses gibis, ainda leio, e não me tornei nem americano nem assexuado, de modo que o “controle” que muitos enxergam não é tão eficaz como parece. Atribuo a essa leitura o meu senso de humor, visivelmente irônico.

Atualmente, me interesso especialmente por gibis antigos. Normalmente da década de 70 (e só não me interesso por gibis ainda mais velhos pela dificuldade em encontrá-los). Apesar disso, grande parte do que tenho é da segunda metade da década de 90, quando eu tinha assinatura Disney e da Turma da Mônica. Meu humilde acervo está assim dividido, nas suas principais revistas:

Pato Donald: 120, Zé Carioca: 101, Tio Patinhas: 61, Almanaque Disney: 59, Mickey: 57, Disney Especial e Reedição: 34, Aventuras em Patópolis: 29, Natal de Ouro: 15

Da turma do Maurício de Sousa, tenho:

Magali: 91, Cascão: 87, Chico Bento: 86, Mônica: 58 e Cebolinha: 55.

Estou querendo vender ou trocar alguns exemplares do Pato Donald de 1998 e 1999. Há uma seqüência de 26 gibis (2147-2172), como podem ver na lista:

Pato Donald: 2015, 2018, 2030, 2033, 2040, 2045, 2055, 2056, 2059, 2062, 2063, 2067, 2068, 2079, 2080, 2082, 2083-2085, 2091, 2107, 2109, 2124, 2125, 2127, 2133, 2134, 2137, 2142, 2143, 2147 até 2172, 2185, 2186, 2191, 2193, 2205.

Quem gosta de quadrinhos, como eu, sabe que sebos podem ser um prato cheio. Há casos em que as pessoas não sabem o valor do produto que estão vendendo. É por essas e outras que tenho a Edição 102 do Mickey, de abril de 1961, e que me custou apenas 50 centavos! É a revista mais antiga que tenho, e não me custou nada.

Há um site muito bom com as capas de todos os gibis Disney: http://www.papersera.net/vilaxurupita/bdc.htm#mk

E há um outro onde é possível comprar gibis mais antigos. A preços de colecionador, naturalmente: www.ecrgo.com 

Parece estranho, e não sei até que ponto isso acontece em outras categorias, mas há muitos jornalistas (e pior do que isso, existem muitos acadêmicos de jornalismo) que simplesmente não gostam de discutir jornalismo. Não digo que declarem abertamente essa posição, pois talvez nem tenham consciência disso. Mas é visível um certo “relaxamento” e “despreocupação”. No máximo um bocejo indignado. Afinal, há tanto com que se preocupar, não é mesmo? Estamos condenados apenas a repetir o que já foi feito, inclusive os erros. A Escola Base não nos serviu pra nada: o Caso Isabella mostrou que o jornalismo não aprendeu a lição. Pois ora, se o jornalista e o estudante de jornalismo não se preocupam mais em teorizar, ou ao menos tentar entender a teoria de suas próprias produções, como esperar que algo diferente seja feito? É por essas e outras que as Universidades contam com inúmeros casos absurdos de gente que quer ser jornalista e não gosta de escrever nem tampouco de ler. Não é necessário, não é? O que importa é a prática, e repetí-la sem ao menos questionar o motivo dela ser assim. Talvez, até nos demos conta do que está errado. Mas pensar é complicado demais, e temos tantas outras coisas mais imediatas, que o melhor a fazer é não discutir jornalismo, nem hoje nem nunca.

Elogio do amor platônico

Eu estava precisando fazer valer o “lirismo” no subtítulo desse blog, então transcrevo um trecho do conto “O Simpósio”, do extraordinário Milan Kundera, presente no livro “Risíveis Amores”. Não conheço muitos fãs ilustres desse escritor tcheco, além da Fernanda Young, que subiu no meu conceito depois que descobri isso.

Kundera é o cara que eu menos recomendaria às moças de família, porque sua leitura é cheia de sobressaltos. Ao mesmo tempo, consigo ver uma pungência muito grande, que extrapola em muito a aparência de vulgaridade que as atitudes e palavras dos personagens podem ter na visão de alguns.

Ei-lo:

Elogio do amor platônico

Havel voltou ao ataque contra Fleischman:

- Afinal você arranjou o apartamento que prometeu à Srta. Klara? – perguntou, lembrando assim o cerco inútil que o outro fazia a determinada moça (conhecida por todos os presentes).

- Ainda não, mas estou tratando disso.

- Devo dizer que Fleischman é um cavalheiro com as mulheres. Não gosta de enganá-las – retrucou a doutora, tomando a defesa de Fleischman.

- Não posso suportar crueldade com as mulheres, elas me dão pena – repetiu o estudante de medicina.

- De qualquer maneira, Klara faz você esperar muito – disse Elisabeth a Fleischman, explodindo num riso tão incontrolável que o chefe se viu obrigado a retomar a palavra.

- Esperar ou não, isso é muito menos importante do que você pensa, Elisabeth. Como todo mundo sabe, Abelardo era castrado, e isso não impediu que ele e Heloísa fossem amantes fiéis e que o amor deles fosse imortal. George Sand viveu sete anos com Frédéric Chopin, imaculada como uma virgem, e até hoje se fala desse amor! Não quero, em tão ilustre companhia, lembrar o caso da putinha que, ao me recusar, me distinguiu com a maior honra que uma mulher pode prestar a um homem. Presta muita atenção, querida Elisabeth, existe entre o amor e aquilo em que você pensa constantemente diferenças muito maiores do que se pensa. Não tenha dúvidas, Klara ama Fleischman. Ela é gentil com ele e no entanto não se entrega a ele. Isso lhe parece ilógico, mas o amor é justamente o que é ilógico.

- Mas o que há de ilógico nisso? – disse Elisabeth, rindo outra vez de maneira inconveniente. – Klara precisa de um apartamento, é por isso que é gentil com Fleischman. Mas não tem vontade de dormir com ele, pois com certeza tem outro com quem dorme. Mas esse outro não lhe pode arranjar um apartamento.

Nesse instante, Fleischman levantou a cabela e disse:

- Vocês me deixam nervoso. Parecem um bando de adolescentes. Quem sabe ela hesita por pudor? Isso não ocorre a vocês? Ou quem sabe ela tem uma doença que esconde de mim? Uma cicatriz que a enfeia? Há mulheres que têm um pudor terrível. Só que são coisas que você não compreende muito bem, Elisabeth.

- Ou então – disse o chefe, ajudando Fleischman – Klara fica tão petrificada de paixão diante de Fleischman a ponto de não poder fazer amor com ele. Você não pode imaginar, Elisabeth, que possa amar alguém a tal ponto que se torne impossível dormir com essa pessoa?

Elisabeth afirmou que não.

Ronaldo e os Travestis

A imprensa está vivendo um momento amplamente favorável. É Caso Isabella, é Padre Voador, é terremoto, é prisão do Ricardo Chab… e aproveitando a onda, agora temos Ronaldo e os travestis. Um prato cheio para a imprensa shownalista mostrar sua habilidade em chamar audiência. E, naturalmente, uma amostra que o “interesse público” é um dos valores-notícia mais facilmente esquecidos, embora seja um dos princípios básicos do jornalismo.

Analisando friamente, o que é notícia no caso Ronaldo? Ele, basicamente. O interesse fundamental é o da pessoa envolvida, e não o da suposta tentativa de extorsão, ou de um possível golpe dos travestis. Isso é totalmente secundário. No vídeo do Jornal Nacional sobre o caso, logo abaixo, um homem é entrevistado, e ele disse que sofreu um caso parecido com o mesmo travesti. Ora, e por que o caso dele não virou notícia? Naturalmente, porque ele não era o Ronaldo. A “notoriedade” se transformou no principal critério de pautabilidade.

A notícia que é notícia principalmente por envolver uma celebridade costuma encontrar ressonância apenas em veículos e áreas muito específicas – em geral, aquelas em que a pessoa está envolvida. Assim, a notícia do Ronaldo poderia se justificar num programa de esportes. Mas, como nesse caso ela nada tem a ver com esportes, ela se encaixa melhor em outro universo, que é das fofocas – e que, portanto, não tem absolutamente nada de jornalístico. Tenho certeza, no entanto, que não são raras as pessoas que, ao ver esse tipo de reportagem, pensam algo como “o que eu tenho a ver com isso?”, ou ainda “de que isso me interessa?”.

O vídeo da Record sobre o caso é ótimo para se discutir também, especialmente a parte final:

Quem colocou esse falso moralista na televisão? Algumas das frases ditas pelo apresentador sobre o Caso Ronaldo: “péssimo exemplo”, “lamentável”, “vergonha”, “você não pode fazer isso, Ronaldo”, “você tem que aprender bons modos com o Kaká e o Pato”, “você está manchando as páginas dos jornais de todo o mundo”, “Ronaldo, ex-jogador em atividade”, “a sua namorada é uma mulher distinta, uma doutora”, e muitas outras frases parecidas.

Naturalmente, se o Ronaldo fosse um bom moço, não se falaria que ele era um “ex-jogador em atividade”. A afirmação é visivelmente uma tentativa de desqualificar o jogador por conta daquilo que ele fez, ainda que uma coisa não tenha nada a ver com a outra – o que ele faz em campo e o que ele faz fora dele. O “jornalista” escolhe seus modelos (Kaká e Pato) e acha que todos devem seguí-los. Provavelmente ele não deve saber que esse tipo de “péssimo exemplo” é mais comum do que se pensa no futebol, e que Kaká e Pato devem ser as raras exceções. De qualquer forma, o moralismo do apresentador é gritante.

Interessante quando ele fala que a namorada de Ronaldo é uma mulher distinta, doutora… quer dizer que se ela não fosse, não teriam problemas as atitudes do “Fenômeno”?

Mas basta, eu ia falar do Ronaldo e já estou falando de moralismo.

Acreditem ou não, isso que segue abaixo era pra ser uma matéria jornalística pra revista do curso de jornalismo. Como a revista não foi publicada, transcrevo por aqui mesmo.

 

Inocência Perdida: Quadrinhos são coisas sérias. Podem ser arma política. Podem liberar as fantasias. E podem precisar de censura

 

O cientista, psica-nalista e devasso Dr. Marston está concentrado. Na sua escrivaninha, rabisca alguns desenhos. Pensa na sua aluna Olive Byrne, com quem fez amor há pouco tempo. Continua rabiscando. Pensa na esposa Elisabeth Holloway, com quem vai fazer amor daqui a pouco. Desse triângulo amoroso e consensual vai nascer a Mulher Maravilha. Vai nascer, vai crescer, vai se desenvolver, e fará parte da Santíssima Trindade dos quadrinhos da DC Comics, ao lado de Batman e Superman.  

E pouca gente saberá que o criador da Mulher Maravilha possuía algumas teorias… estranhas. Uma delas dizia que a América devia se tornar uma Matriarca, além de defender que a mulher poderia e iria usar a escravização sexual para dominar o homem. Tudo isso se refletiu na criação da Mulher Maravilha.

Pode não parecer, mas as “HQ’s”, como são chamadas por seus entusiastas, costumam ter algumas “mensagens” escondidas. Talvez não como essa mensagem implícita nas histórias da Mulher Maravilha. Mas não é difícil encontrar, por exemplo, heróis dos quadrinhos bastante engajados politicamente. A mensagem por trás de um personagem assim, costuma ser a ideologia do seu criador, que tenta passar a sua visão de mundo para o leitor.

Edson Takeuti, o popular Tako X, é co-criador do Gralha, um herói curitibano. Mas seu personagem mais conhecido é o Marco, que circulou num jornal de Curitiba entre 1989 e 2002. Tako X é filho de japonês. Os japoneses costumavam aparecer bastante nas histórias de um certo personagem norte-americano durante a Segunda Guerra. “Vários personagens foram criados para incitar certas pessoas, atitudes e reações”. Foi o caso do Capitão América, o herói que se tornaria símbolo da ideologia norte-americana. “Muitas histórias foram encomendadas durante a guerra pra ajudar no alistamento e criar um sentimento anti-nazista e patriótico”. E dessa forma, depois de Pearl Harbor os japoneses entraram para as histórias do Capitão América como representantes das forças do mal. Ao lado dos alemães, e posteriormente dos comunistas. O Caveira Vermelha, inimigo do Capitão América, foi nazista e depois comunista nas histórias em quadrinhos. Por mais que talvez ele tenha sido volúvel e tenha mudado drasticamente de opinião, o mais provável é que os criadores não perceberam que as duas coisas são inconciliáveis.

“Americano é meio alienado mesmo. Sempre vota a favor do governo”. Quem fala agora é Chuji Seto Takeguma. Cláudio Seto para os cristãos. Foi o primeiro brasileiro desenhista de mangá que se tem notícia. Fez parte das clássicas editoras Edrel e Grafipar, que qualquer esclarecido em quadrinhos nacionais conhece, exalta e acende uma vela em louvor. Seto faz charges para dois jornais de Curitiba. E não considera o leitor tão inocente assim, a ponto de cair nas mensagens e falácias escondidas nas histórias em quadrinhos. “A pessoa só vai se influenciar pelo comportamento do personagem se for muito fanática”. Seto não acredita muito em mensagens subliminares nos quadrinhos. Mas reconhece o envolvimento ideológico de alguns personagens.

Além das mensagens políticas e fantasiosas que estão no comportamento e muitas vezes no próprio visual do herói, há algumas artimanhas na parte gráfica das histórias em quadrinhos. Seto: “A gente fazia algumas brincadeiras”. Uma delas consistia em usar quatro páginas diferentes para fazer um desenho. Cada página com uma parte do desenho. Mas como ninguém vai pegar as quatro páginas depois de prontas e juntar, jamais saberá do desenho “subliminar” que foi colocado de propósito ali. Nem mesmo outros desenhistas. Tako X: “Eu mesmo nunca notei nada propositalmente subliminar nas histórias que li até hoje. Mas se existe, é intencionalmente”.

 

Para o alto e avante com as mensagens

 

Mas e todas essas mensagens e ideologias escondidas são uma coisa ruim? Depende do ponto de vista. Eduardo Luiz Pereira é colecionador de quadrinhos. Para ele, aí é que está a graça das histórias. “Os quadrinhos que passam uma certa ideologia são os melhores que existem”. Eduardo diz que os quadrinhos costumam trazer histórias que fazem o leitor pensar em várias questões. 1) Pessoais: o herói coadjuvante perde a namorada. Ou é seu pai que morre. 2) Naturais: Uma bomba biológica contamina uma cidade. O que aconteceria nesse caso? 3) Políticas: Como seria caso a ditadura voltasse a coagir as pessoas? “As histórias guardam mensagens escondidas sobre o que mundo é capaz hoje, coisas que dificilmente paramos para refletir.”

Seto deu a entender que só os loucos se influenciam negativamente pelas histórias. Eduardo cita um exemplo. Um jovem colocou uma toalha no pescoço, gritou “Para o alto e avante”, e pulou da janela. Quebrou a perna e infelizmente não conseguiu levantar vôo. Mas por outro lado, há casos de crianças que salvaram outras, em situações de perigo  eminente. E fizeram isso porque o seu herói favorito também faria. Nisso, Eduardo concorda com o que diz Tako X: “Personagens com boa índole e alto índice de aceitação popular vão servir de exemplo pra seus leitores”.

As mensagens que os quadrinhos passam podem ter relação com o momento que a sociedade está passado. Na década de 60, Martin Luther King tinha um sonho. Era ver um personagem negro nas histórias em quadrinhos. Em 1969 apareceu Falcão, o primeiro herói afro-descendente da Marvel. Era uma das épocas em que mais se discutia o preconceito contra os negros. A moral de uma sociedade com o passar dos anos também pode fazer com que algumas mensagens apareçam, mesmo que não tenham sido intencionais. Quando o Batman foi criado, por exemplo, ninguém duvidava de sua masculinidade. A idéia principal era passar a mensagem de um milionário que perdeu os pais e ficou traumatizado. Sentiu-se então na obrigação de ajudar outros órfãos. Eduardo: “Os editores não poderiam imaginar que 60 anos depois o mundo falaria tanto de homossexualismo, pedofilia e pessoas de classe alta adotando cachorros em vez de crianças”.

 

A censura pega os quadrinhos

 

Nem os quadrinhos escapavam ao controle dos censores. Principalmente os eróticos. Cláudio Seto que o diga. Foi ele que criou a Maria Erótica, uma loira com cabelo pichaim parecido com a medusa.  Vivia-se a ditadura militar, e os censores não gostavam do erotismo desse tipo de quadrinhos. Como não entendiam muito as outras histórias, se preocupavam em censurar as eróticas.

Certa vez a Maria Erótica foi denunciada, e a polícia baixou na editora em que Seto trabalhava, em São Paulo. Mas ele não estava lá naquele momento. Solução? A polícia apreendeu todos os exemplares originais da Maria Erótica e os colocou atrás das grades. Literalmente. Naquela noite os exemplares de Maria Erótica dormiram em companhia masculinawww.mulheresnosquadrinhos.blogger.com.br.

Mas houve exceções, diz o samurai. “Teve um censor que gostava de quadrinhos eróticos. Ele mandou uma história e foi publicada”. Com um pseudônimo, obviamente. O Estado reprimia seus próprios instintos.

Durante esse período, o gibi foi uma ameaça à integridade do Estado. É o que podemos deduzir da censura e das retaliações que sofreu. Caminhões das prefeituras passavam recolhendo de casa em casa todos os exemplares das histórias em quadrinhos. Depois, eram levados em praça pública e queimados pela “Inquisição”. Cartazes eram espalhados com um garoto vestido de cowboy. “Hoje mocinho, amanhã bandido”, dizia. O faroeste era outro dos gêneros favoritos dos fãs de quadrinhos.

 

 

Os quadrinhos já mudaram bastante ao longo dos anos. Eduardo diz que eles não são mais inocentes. Essa inocência perdida das histórias em quadrinhos acontece porque “a maioria trata de assuntos que estamos vivendo no momento”. Os temas das histórias têm cada vez mais alguma relação com a sociedade. Por isso a violência também aparece tanto em alguns gibis. “Mas isso poderia ser resolvido de uma forma bem simples”. Uma classificação etária para os quadrinhos. Para preservar os inocentes.

Se eu tivesse disposição para tanto, analisaria jornalisticamente a seção “Notícias Que Vão Mudar o Mundo”, do site Kibeloco. É uma amostra e tanto de que os valores-notícia geralmente difundidos na impresa podem não encontrar correspondência diante do público leitor. Bem se vê também, pela seleção de notícias feitas pelo site, que freqüentemente o jornalismo não mostra nenhuma vontade de atender ao “interesse público”. Ao contrário, mostra preocupações diversas, e em grande parte dos casos tenta justificar a notícia apenas pela “notoriedade” das pessoas envolvidas.

Algumas das últimas notícias que apareceram nessa seção do site:

Grazi Massafera lê revistas em shopping carioca. (Na lista de valores-notícia, não encontro outro senão o da “notoriedade”, o de envolver pessoas famosas. De resto, não há nada que o aproxime de uma notícia. Nem mesmo há a “originalidade” do fato).

Lula diz que Brasil terá carro “com cheiro de cachaça”. (Novamente vemos a “notoriedade” da pessoa envolvida. A parte final da manchete talvez tenha a ver com o valor-notícia “inusitado” e, naturalmente, deixa claro o posicionamento do veículo na tentativa de “debochar” do conteúdo da frase)

Amy Winehouse é fotografada devorando batata frita. (Em seu trabalho sobre os valores-notícia, Gislene Silva classifica a “notoriedade” dentro do grupo “proeminência”, do qual também faz parte a “celebridade”. A palavra “devorando” mostra bem um juízo de valor na tentativa de ironizar a situação vivida pela celebridade)

Apenas 1% da população da Albânia tem acesso à internet. (Talvez tenha a ver com “impacto”, mas no sentido negativo, já que a tentativa é de demonstrar que é um número reduzido. Também pode entrar no fator “inusitado”, pertencente ao macro-grupo da “Raridade”, conforme Silva.)

Ao lado do namorado, Gisele arruma seu cinto na rua (A maior parte das notícias dessa seção do Kibeloco possuem como valor-notícia a “notoriedade”. É uma clara tentativa de debochar da importância atribuída a esses fatos que, na visão de quem faz o site, em nada acrescenta jornalisticamente. A Gisele em questão, era a Bündchen)

Harrison Ford depila o peito para protestar contra desmatamento (“Celebridade”, novamente. Mas também possui algo do valor “incomum”, “original” ou “inusitado”)

Macacos machos preferem brinquedos de meninos, diz estudo (A crítica feita contra essa notícia chega até um campo interessante, que é o das “bizarrices” científicas – conforme elas são entendidas em muitos casos. Em termos de valores-notícia, ele é enquadrada no macro-grupo “Conhecimento/Cultura”, que engloba, entre outras coisas, as “descobertas”, “invenções” e “pesquisas”. O jornalismo, ao se apropriar desse conhecimento científico, costuma privilegiar o “incomum” e o “original”. Normalmente, o próprio jornal já mostra um certo “deboche” na seleção desse tipo de tema)

Filha de Solange Couto, Morena Mariah, também está com dengue (Salta aos olhos, novamente, a “notoriedade” e a “celebridade” em questão. Interessante ver que o jornalismo se apropria de um fato de “Interesse humano”, como é o caso da dengue, englobado por Silva no grupo de “Tragédia/Drama”, para desenvolver o seu valor-notícia principal, que é a pessoa famosa envolvida)

Pesquisadores descobrem o cocô humano mais antigo das Américas (Mesmo caso da notícia dos macacos machos. O valor notícia é a “pesquisa” e a “descoberta”, mas também é o “incomum” e o “inusitado”. Chamo a atenção novamente para o deboche da mídia nesse tipo de notícia. Merece um estudo a parte, se é que alguém já não o fez)

Primeiro filho de casal de BBBs nasce em setembro (“Proeminência”, novamente. Silva inclusive coloca nesse grupo as notícias de “sucesso/herói”. Nesse caso, seriam os “heróis do BBB”)

Caramujos invadem Niterói e São Gonçalo (A princípio, temos aí alguma coisa de “interesse humano”. As cidades, naturalmente, obedeciam a critérios de “proximidade”, outro dos valores-notícia. O que interessa nesse caso é ver que a suposta proximidade não alcança a todos, e certamente quem colocou essa notícia no site do Kibeloco não mora nem em Niterói nem em São Gonçalo. Pode ser entendida, talvez, como uma crítica a “universalidade” que a notícia tenta conseguir, quando na verdade, muitas vezes está restrita a um universo muito específico)

Morre Herb Peterson, criador do café da manhã do McDonald’s (“Morte” é um valor notícia, na proposta de Silva, que aparece no grupo “Tragédia/Drama”. Mas certamente não é o único valor presente nessa notícia. A “proximidade” é um valor que também engloba questões culturais. As pessoas comem no McDonald’s, afinal. Talvez tenha também algo do “original” na notícia. E, ainda, alguma coisa de “notoriedade”, ainda que certamente ninguém conhecesse o sujeito. O que prevalece nesse caso, penso ser justamente a proximidade cultural).

As análises acima foram feitas com base no ótimo trabalho de Gislene Silva, cujo link está logo abaixo. O trabalho, utilíssimo para meu TCC, se chama “Valores-Notícia: atributos do conhecimento (Para pensar critérios de noticiabilidade).

http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/17409/1/R0797-1.pdf

O jornalismo tem mais sorte do que juízo. Não fosse tão evidente a culpabilidade no caso da menina Isabella, e teríamos facilmente uma nova Escola Base. Bem se vê que a lição não foi aprendida. A capa do lado é do dia 01/04, poucos dias depois do crime. Naquela época, estávamos muito longe de descobrir todos os detalhes que a perícia revelou. Tudo ainda era dúvidas, e não se descartava a terceira pessoa dentro do apartamento. Pode-se alegar que a manchete “Pára, Pai! Pára, Pai” não acusa diretamente Alexandre Nardoni, porque, afinal de contas, embaixo se explica o contexto da frase. Nesse sentido, tampouco se pode dizer que a frase é falsa. Só que qualquer um pode ver que já estava aí a condenação sumária do pai de Isabella. O jornal já havia tomado a sua posição, e o conteúdo da manchete, por tudo que ela conota, é a prova explícita disso. Imaginemos que se trata de um pai inocente. O jornal não estaria, então, acabando com a sua credibilidade diante da opinião pública? Teria ele condições de ter uma opinião definida sobre o caso? A frase supostamente dita por Isabella poderia muito bem ter sido ”Pára! Pára! Pai, Pai”, por exemplo, o que levaria à uma terceira pessoa no prédio. Na ânsia pela novidade e pela confirmação das suspeitas, o jornalismo mostra que continua correndo sérios riscos.

Artigo de Luiz Antônio Magalhães no Observatório da Imprensa:

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/images/479IMQ005.jpg

O SBT regional, aqui em Curitiba, virou Rede Massa, mas o site do Paraná On Line ainda não foi totalmente atualizado. A prova:

Programação local:
O Tribuna na TV, apresentado por Ricardo Chab, é um programa de variedades que destaca temas polêmicos, notícias policiais e esportivas, bem como outras matérias de interesse público. Entre as atrações do programa está a intervenção de um(a) repórter, diretamente do centro da cidade, entrevistando a população. Exibido de segunda a sexta-feira, às 12h30.”

Fonte: http://www.parana-online.com.br/grupo_gpp.php

A ironia disso tudo é que a notícia da prisão de Chab, acusado de extorsão, acabou aparecendo no Tribuna, apresentado por Róbson há muito tempo. Afinal, era uma “notícia policial”, e uma matéria de “interesse público”.

Quem sai perdendo nessa história, além do próprio apresentador (em credibilidade, e não em dinheiro), é o jornalismo e os programas policiais em geral. Querendo ou não, sempre respinga alguma suspeita de sujeira nos concorrentes quando acontece algo assim.

Demorou sete períodos na faculdade de jornalismo para termos aula de Antropologia. Mas, para recuperar o tempo perdido, tivemos que assistir o filme “Crash – No Limite” e lermos o livro “O que é Etnocentrismo”, de Everardo Guimarães Rocha, para então relacioná-los. E ambos os produtos são campos férteis para comentários.
A realidade apontada em “Crash” mostra como é fácil colocar a si mesmo, ou ao seu próprio grupo étnico, no topo de uma certa “hierarquia evolutiva”. É ainda uma herança – maligna, nesse caso – deixada pelo pensamento darwiniano. Assim, os grupos engrandecem seus próprios valores e questionam, ainda que inconscientemente, os valores dos outros, criando, dessa forma, uma situação de conflito que em nada parece ser proveitosa.
Não é difícil fazer com que tenhamos as nossas próprias opiniões sobre o que vem a ser o “outro”, sem lhe dar seque a oportunidade de se explicar por si só. Rocha (p. 17) lembra que “o ‘outro’ é alguém calado, a quem não é permitido dizer de si mesmo, mera imagem sem voz, manipulado de acordo com desejos ideológicos”. Aquilo que simplesmente “achamos”, seja por exposição midiática ou por uma experiência específica, ganha a força de uma convicção e passa a ditar o nosso comportamento com relação a determinado grupo – independemente do que ele seja realmente.
Na trama do filme, é possível observar a força que ganham essas nossas convicções, regulando as nossas atitudes cotidianas e, inclusive, impedindo que sejam tomadas atitudes mais “racionais”. É por isso que não acreditamos no chaveiro que nos adverte que a porta está frouxa e que é preciso trocá-la. Ora, o chaveiro faz parte de um grupo étnico, social e cultural que não o nosso. Não compartilha, portanto, das mesmas coisas que eu. Razão pela qual, é impossível que eu lhe tenha alguma confiança. Sei que ele vai me prejudicar, deve estar cheio de segundas intenções.

A situação acima, visível no filme, é apenas um dos exemplos da desconfiança existente entre os grupos culturais diversos, fruto, quase sempre, apenas dos atributos impostos aos outros. Não é, portanto, uma atitude baseada em argumentos racionais. Essa relação é visível quando o mesmo chaveiro, apenas devido à sua aparência, recebe a desconfiança da personagem de Sandra Bullock.

É interessante observar o que Rocha fala sobre o processo de fazer o “eu” se tornar superior. Ele lembra que, dessa forma, há um “reforço da identidade do ‘nosso’ grupo”. É uma tentativa de defesa que temos diante de um ambiente que, a princípio, nos é hostil. No filme, vemos isso quando um dos assaltantes negros expõe conceitos e opiniões sobre a relação entre o seu grupo racil e os brancos. Fica clara, nesse ponto, não apenas a distância que os separa, mas também a necessidade do grupo em se fortalecer e só prejudicar, na visão deles, aqueles que nos causam alguma espécie de mal.
“Não assaltar um negro”, por exemplo, seria justamente reforçar a identidade dos elementos desse grupo. Ao mesmo tempo, o assaltante faz críticas ao comportamento esterotipado de alguns membros de seu próprio grupo, e propõe maneiras de ser que também acabam o segregando dos demais – visivelmente, dos brancos.
Essa separação não se faz, como poderia se pensar, apenas entre grupos historicamente divididos. A visão etnocentrista e a necessidade de impor os nossos próprios padrões, por quaisquer que sejam os motivos, faz com que também os árabes, os chineses, os mexicanos e tantos outros sejam vistos com uma ótica distorcida e geralmente preconceituosa. Os assaltantes atropelaram um chinês. Parece incrível que a questão da nacionalidade possa ter peso na hora de decidir se vão prestar auxílio ou não. Percebe-se, novamente, nessa passagem, quão fortes podem se tornar os valores de nosso grupo com relação ao grupo do “outro”.
O policial loiro que, no filme, separa-se de seu parceiro porque ele comete atitudes preconceituosas com os negros, além do abuso de poder, é um personagem extremamente fértil para ser analisado. A sua atitude revela, num primeiro momento, uma sensibilidade maior em relação ao “outro”. Visivelmente, não era uma pessoa “do seu grupo” que ele estava defendendo. Teria o policial então uma capacidade maior de “relativizar” as outras culturas, considerando o valor das potenciais diferenças?

Atitude semelhante demonstra ao reecontrar o produtor negro, e fazer com que escapasse da polícia. Mas ao mesmo tempo, a situação muda de figura quando ele encontra um dos assaltantes negros. Ao se desentender com ele, e por fim sacar a sua armar, atirar e matá-lo, a atitude do policial suscita algumas interessantes reflexões. Mesmo com a maior sensibilidade, percebemos que há situações em que não é possível dissociar o comportamento da pessoa com os atributos que acreditamos pertencerem ao seu grupo étnico ou racial.
Por mais que ele não acredite naquilo, há um referencial vindo da própria sociedade que o impele a agir daquela maneira em situações de conflito. É como se o etnocentrismo, ou os seus reflexos, pudessem ser uma espécie de herança da sociedade, como se já pertencessem ao “senso-comum”, e contra os quais nem mesmo as nossas opiniões poderiam lutar. 

Ao mesmo tempo em que as várias histórias do filme acabam se cruzando, elas mostram que os diferentes grupos étnicos e sociais podem, a qualquer momento, precisar do auxílio do “outro”. A atitude que tomamos diante dessas situações revela o nosso grau, maior ou menor, de etnocentrismo. O conceito de Rocha para “relativização”, em oposição ao etnocentrismo, é encontrado em poucos momentos dentro do filme “Crash – No Limite”.

Como o autor afirma, “relativizar é sempre mais complicado, pois nos leva a abrir mão das ‘certezas’ etnocêntricas em nome de dúvidas e questões que obrigam a pensar novos sentidos para a compreensão da sociedade do ‘eu’ e da sociedade do ‘outro’” (p. 54).

Assim, vemos a “teimosia” dos personagens em aceitar que os outros grupos possam ter comportamentos diferentes, e mesmo bondosos, com relação a nós. Essa “surpresa” nas atitudes quebra as nossas convicções sobre aquele grupo e, por isso, fazemos o possível para enfrentá-la e refutá-la.

Talvez seja possível ainda relacionar a própria estrutura do filme com os conceitos e teorias que se preocupam em estudar o etnocentrismo. No filme, são várias histórias correndo soltas, livres. Os personagens não se conhecem, a princípio. No decorrer do filme, eles podem até vir a se encontrar e se relacionar de alguma maneira. Mas, em essência, as suas histórias são diversas e separadas. Não é, então, a história específica de determinados personagens, com começo, meio e fim, da forma que estamos mais acostumados.

Ora, há uma relação importante a se fazer quando constatamos que o evolucionismo pregava uma história “única e universal”, do “primitivo” para o “civilizado”, e daí, constantemente, para a evolução. O pensamento difusionista, por sua vez, tratato por Rocha (p. 58), não considera que exista uma história apenas, mas várias, e que cada cultura tem a sua, particular e específica, com os seus próprios referenciais.

É possível então fazer um espécie de metáfora explicando o fato da história do filme “Crash – No Limite” não ser única e uniforme.

O “nó” desfeito por Durkheim nos seus estudos antropológicos refere-se à afirmação de que “o social não se explica pelo individual”. A frase, a princípio simples, não é lembrada pelos personagens do filme nas situações conflituosas, onde a atitude de uma pessoa isolada pode muito bem determinar um estereótipo para todos os demais.
O encontro do “eu” com o “outro”, numa sociedade que cada vez mais valoriza a competição e que costuma se segregar ainda mais, pode render resultados bastante interessantes e mesmo harmoniosos. Sofre-se tanto hoje em dia, e uma coisa bela como a diversidade não pode ser mais um motivo para vivermos sempre “no limite”.
O filme termina com uma bela canção do Stereophonics, chamada “Maybe Tomorrow”, e que faço questão de deixar o video-clip          

Tá certo que às vezes os dois exageram. Mas que é interessante, não resta dúvidas! Evaristo Costa e Sandra Annerberg normalmente se esquecem que estão apresentando o Jornal Hoje e começam a papear sobre temas particulares. Não creio que seja algo combinado. Jornalisticamente, esse bate-papo quebra com aquela imagem sisuda que temos dos apresentadores – muito visível em jornais “pesados”, como o Jornal Nacional, por exemplo. E creio que o público, de maneira geral, aprecia e se diverte com os diálogos.

O vídeo está disponível em: http://br.youtube.com/watch?v=aLv7bW2nTws

PS: O Jornal Hoje é legalzinho, é mais leve, menos sensacionalista, mais interativo… Agora é só diminuir o número de pautas sobre a pobre menina Isabella né?

Da Agência Estudal de Notícias

(http://www.aenoticias.pr.gov.br/modules/news/article.php?storyid=37138)

Beto Almeida, jornalista e diretor da Telesur, declara na matéria:

“… que a América Latina precisa que os meios de comunicação atuem favoravelmente a um processo civilizatório de cooperação e de integração “e não através deste terrorismo midiático que é feito contra todos os governantes que ousam defender os interesses populares”.

“Nós vimos como tem sido vítima de um terrorismo midiático, desta tirania midiática privada, o governador Roberto Requião. Ele tem sido vítima, porque combate os monopólios, assim como Evo Morales, e como o presidente Chávez, que é vitima de um terrorismo midiático internacional”, apontou Almeida.

“Por isso, cada vez mais devemos encarar a comunicação como alvo estratégico fundamental, como ferramenta para criarmos uma civilização que precisamos fora do mercado. Uma civilização que seja de políticas públicas, de integração entre as pessoas, dos povos e de uma humanidade livre dessa escravização mercadológica, hoje sustentada por esse terrorismo midiático, que apenas assegura a rapina das nossas riquezas naturais e a destruição da nossa cultura. E a comunicação é um instrumento de libertação, para isso, é preciso fortalecer, expandir, consolidar e aprofundar o canto público da comunicação”, completou.

Não quero entrar no campo político. Me interessa nesse caso, unicamente, o papel jornalístico. Todas as palavras em negrito mereciam profundas análises de discurso.

Mais adiante no link, há uma entrevista com o jornalista, que diz algo, enfim, bastante interessante:

A Telesur não teme ser taxada de imparcial?
Beto Almeida – Não existe imparcialidade. As grandes mídias não são imparciais. Elas são favoráveis à defesa de programas econômicos neoliberais, defendem a continuidade da desnacionalização da economia, de planos econômicos que levaram a América Latina a viver essa situação de miséria. Isso não é imparcialidade. Nós tampouco somos imparciais. Somos independentes porque não temos vinculação com agentes interessados no lucro. Nós defendemos aquilo que está preconizado nas constituições dos países: a integração latino-americana.

Admito que são raríssimos os jornalistas que admitem que é balela essa história de imparcialidade. Depois falarei mais especificamente dessa Telesur, já que o tema jornalístico em jogo é muito interessante – e nada tem a ver com ”gostar ou não” do governador.

Padre Voador

Alguns mais xeretas, como é o meu caso, descobriram um blog na internet em que o padre se pronuncia sobre as suas peripécias:

http://danielsantos.org/arquivos/2008/04/05/a-resposta-do-padre-voador-paranaense/ 

 

O autor do blog transcreve emails que recebeu do Padre Adelir (ou Aderli) cerca de um mês antes dele sumir. E o padre diz, entre outras coisas:

 

“Ainda hoje estive reunido em Curitiba com o Tenente Coronel Rocha Filho, do SINDACTA II, para tratarmos sobre a questão do espaço aéreo para o evento. Sempre tento agir de forma consciente e responsável. Sou Padre da Diocese de Paranaguá. Minha formação: Filósofo, Teólogo, Pós-Graduado em Comunicação Socia, e Pós-Graduando em Counseling (Aconselhamento Pastoral). Quando eu estava cursando a 7ª série, tive contado com os balões de gás hélio. Isto ocorreu na Escola e de lá para cá, passaram-se uns bons anos. Depois que me dediquei ao para-quedismo e parapente, iniciei minha expereiência com os balões. Todos que viam eram unânimes em afirmar não ser possível voar com as “bexigas”. Contra qualquer opinião, fui testando-os e catalogando os resultados. Desta forma, em outubro de 2007, fiu para a cidade de Ampére por estar fora do mar e ser mais seguro.”

 

As acusações mais leves feitas contra o padre dizem respeito justamente a uma suposta ”irresponsabilidade”. Como se vê pela citação acima, ele se considerava responsável e consciente das atitudes que tomava. Por outro lado, a última frase, destacada em negrito, faz ver que ele escolheu um cidade longe do mar na primeira viagem. Não é o caso, naturalmente, de Paranaguá. Será que o sucesso dessa aventura não fez com que se descuidasse do risco do mar na sua segunda tentativa, somado ao fato do grande apelo popular que encontrava em sua Paróquia?

 

Curiosidade: O Google retorna 10.900 resultados para “Padre Adelir”, mas também 655 para “Padre Aderli”. A pressa faz os jornalistas criarem muitos anagramas.

Tive paciência para tentar acompanhar o Domingo Espetacular. Bem, parte dele. Destaco as seguintes frases ditas durante a transmissão, que fazem ver que há mais interesses do que o de “manter informada a população”, como devem pregar as cartilhas de jornalismo da emissora:

“Imagens de todos os ângulos da reconstituição”

“Pontos de vistas privilegiados”

“Revelações exclusivas sobre o Caso Isabella”

“Vamos às informações mais recentes”

“A nossa equipe acompanhou o dia todo”

“Informação exclusiva obtida pela Record”

“As lentes da Record acompanharam todos os grandes momentos”

(Depois eu veria que essa mania de se promover acontece também no Fantástico: “Informações inéditas”, “acesso à integra dos áudios”, “nossos repórteres trazem a cobertura completa”).

Destaco também a necessidade que o programa (usado apenas pra exemplificar, já que vale pra mídia em geral) tem em legitimar tanto destaque, usando o povo como desculpa.

Todas essas frases foram ditas no momento de chamar o caso:

“… o crime que mobilizou o país”

“… o crime que comoveu o Brasil”

“… o crime que chocou o Brasil”

“… o crime que abalou o país”

Sem falar que o Paulo Henrique Amorim chamou ao menos seis vezes a matéria do Cabrini sobre o caso, para “daqui a pouco” (sempre usando as palavras “exclusivo”, “inédito” e similares). Não tive paciência pra ficar esperando.

Depois de meia hora falando exclusivamente sobre o caso, e anunciando a matéria do Cabrini (exclusiva! exclusiva!) eu desliguei a tv.

Ah, ainda teve uma jornalista que falou por telefone com a madrasta sem avisar que estava gravando.

A Record passou a manhã inteira, e terminou apenas às 14h20, a transmissão da reconstituição do Caso Isabella. Novamente se percebe que em termos de “shownalismo” a emissora é campeã. Não é a única emissora a tratar o caso como uma ótima oportunidade de ganhar audiência, mas geralmente ela supera as outras. Interessante que depois os jornais vão ouvir especialistas explicando “por que a sociedade se mostra tão interessada no Caso Isabella”. Não é pra menos, com um bombardeio midiático desse tamanho.

Haja saco pra agüentar os “jornalistas” falando que daqui a pouco vamos ver “informações inéditas”, “imagens exclusivas” e demais baboseiras auto-referenciais, que em nada parecem se preocupar com as vidas envolvidas no caso. No fundo, eles querem que o Caso Isabella se prolongue. Tanto é assim que no Domingo Espetacular eu não posso perder as “novas informações”, ainda mais que “Roberto Cabrini tem uma revelação surpreendente que pode mudar a situação do caso Isabella”.

Admito que o jornalista que conduz o “Plantão” tem que ter uma habilidade monstruosa. Afinal, não deve ser fácil manter as pessoas interessadas quando não há nada acontecendo. Para isso, ele usa o tom de voz (algo angustiado, como se tivesse narrando o caso ao vivo), chama um especialista, pede a intervenção dele para responder alguma coisa, e repete tudo que já foi dito, mas de outra maneira.

Convenhamos: às vezes dá vergonha pertencer à mesma classe que esses jornalistas.

Nesse primeiro vídeo, está Ricardo Chab, jornalista, o paladino dos fracos e oprimidos, o defensor do povo e das causas sociais, reagindo indignado contra os abusos de uma prefeitura. (Disponível em: http://br.youtube.com/watch?v=abIm36o5Hjk)

E aqui o vídeo de sua prisão na sexta-feira, acusado de exigir uma grande quantia em dinheiro da Centronic para que não fosse divulgado em seu programa uma denúncia contra a empresa.

Leia a notícia completa aqui:

http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=760158&tit=Ricardo-Chab-e-preso-acusado-de-extorquir-R-70-mil-de-empresa

E aqui:

http://jornale.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=9881&Itemid=52

 

Saiu num jornal por aqui. A matéria falava sobre uma visita de estudantes à uma aldeia indígena. Por sinal, é sempre interessante quando sai algo com a temática indígena – desde que não seja algo que os distancie ainda mais de nós, os “civilizados”. Mas em dado momento da matéria, o jornalista deu voz a duas crianças, estudantes que acompanharam a visita. É aí que nasce a pérola:

“No colégio, já tínhamos aprendido um pouco sobre os costumes dos índios. Sobre como eles agem e sobre o que comem. Entretanto, ver tudo pessoalmente é diferente…”

Creio que nem na França as crianças falam “entretanto”. Naturalmente, foi o jeito encontrado pelo jornalista para melhor encaixar as diferentes enunciações ditas pelas crianças, de 10 e 11 anos. Aliás, essa é outra coisa estranha. A citação acima continua da seguinte maneira:

“É uma experiência muito boa e que nos faz ver o mundo de uma outra forma”, afirmaram Fulano, de 10 anos, e Fulana, de 11.

Acho improvável que eles tenham falado em uníssono.

Hélio Leites

Belos videos com Hélio Leites, o artista minimalista. Um personagem e tanto. Um “cronista” das artes manuais: se preocupa com o pequeno e com o insignificante. Um filósofo. Todo domingo, na Feira do Largo da Ordem. “O que ele faz com o material bruto é uma metáfora do que Deus faz com nossa vida”, segundo Dago Schelin. Trabalho realizado pela Casa da Videira, Projeto Olho Vivo e Canal Futura.

Hélio usa botões, palitos de sorvete, cascas de pinhão e muitos outros artigos desprezados pelas pessoas para criar a sua arte e passar a sua poesia, dotada de grande conteúdo humanista.

Primeiro Post!

Começo aqui um espaço onde colocarei meus palpites no jornalismo, além de falar sobre literatura, música, e lirismo em geral! E coisas que eu achar interessante. Sem muito compromisso com regras, mas postando aquilo que eu achar que possa vir a calhar, e que não teria outro espaço pra falar. Vamos ver a que caminhos o blog me leva!